sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

MEIMEI

MEIMEI (Irma de Castro Rocha)
(*22/10/1922 - +01/10/1946)

RESUMO BIOGRÁFICO:

Homenageada por tantas casas espíritas, que adotam o seu nome; autora de vários livros psicografados por Chico Xavier, entre eles: "Pai Nosso", "Amizade", "Palavras do Coração", "Cartilha do bem", "Evangelho em Casa", "Deus Aguarda", "Mãe" etc... e, no entanto, tão pouco conhecida pelos testemunhos que teve de dar quando em vida, Irma de Castro - seu nome de batismo - foi um exemplo de resignação ante a dor, que lhe ceifou todos os prazeres que a vida poderia permitir a uma jovem cheia de sonhos e de esperanças. Meimei nasceu em 22 de outubro de 1922, na cidade de Mateus Leme - MG e transferiu residência para Belo Horizonte em 1934, onde conheceu Arnaldo Rocha, com quem se casou aos 22 anos de idade, tornando-se então, Irma de Castro Rocha. O casamento durou apenas dois anos, pois veio a falecer com 24 anos de idade, no dia 01 de Outubro de 1946, na cidade de Belo Horizonte-MG, por complicações generalizadas devidas a uma nefrite crônica.

A Origem da Doença

Durante toda a infância Meimei teve problemas em suas amígdalas. Tinha sua região glútea toda marcada por injeções. Logo após o casamento, voltou a apresentar o quadro, tendo que se submeter a uma cirurgia para extração dessas glândulas. Infelizmente, após a operação, um pequeno pedaço permaneceu em seu corpo, dando origem a todo o drama que viria a ter que enfrentar, pois o quadro complicou-se com perturbações renais que culminaram com hipertensão arterial e craniana.

O Sofrimento

Devido à hipertensão, passou a apresentar complicações oculares, perdendo progressivamente a visão e tendo que ficar dia e noite em um quarto escuro, sendo que nos dois últimos dias de vida já estava completamente cega. Durante os últimos dias de vida, o sofrimento aumentou. Tinha de fazer exames de urina, sangue e punções na medula, semanalmente. Segundo Arnaldo Rocha, seu marido, Meimei viveu esse período com muita resignação, humildade e paciência.

O Desencarne

Os momentos finais foram muito dolorosos. Seus pulmões não resistiram, apresentando um processo de edema agudo, fazendo com que ela emitisse sangue pela boca. Seus últimos trinta minutos de vida foram de desespero e aflição. Mas, no final deste quadro, com o encerramento da vida física, seu corpo voltou a apresentar a expressão de calma que sempre a caracterizou. Meimei foi enterrada no cemitério do Bonfim, em Belo Horizonte.

Surge Chico Xavier

Aproximadamente cinqüenta dias após a desencarnação da esposa, Arnaldo Rocha, profundamente abatido, acompanhado de seu irmão Orlando, que era espírita, descia a Av. Santos Dumont, em Belo Horizonte, quando avistou o médium Chico Xavier. Arnaldo não era espírita e nunca privara da companhia do médium até aquele momento. Quase dez anos atrás haviam-no apresentado a ele, muito rapidamente. Ele devia ter pouco mais de doze anos. O que aconteceu ali, naquele momento, mudou completamente sua vida. E é ele mesmo quem narra o ocorrido: "Chico olhou-me e disse: "Ora gente, é o nosso Arnaldo, está triste, magro, cheio de saudades da querida Meimei"... Afagando-me, com a ternura que lhe é própria, foi-me dizendo: "Deixe-me ver, meu filho, o retrato de nossa Meimei que você guarda na carteira." E, dessa forma, após olhar a foto que Arnaldo lhe apresentara, Chico lhe disse: - Nossa querida princesa Meimei quer muito lhe falar!"

E, naquela noite, em uma reunião realizada em casa de amigos espíritas de Belo Horizonte, Meimei deixou sua primeira mensagem psicografada. E, com o passar dos anos, Chico foi revelando aos amigos mais chegados que Meimei era a mesma Blandina, citada por André Luiz na obra "Entre a Terra e o Céu" (capítulos 9 e 10), que morava na cidade espiritual "Nosso Lar"; disse, também, que ela é a mesma Blandina, filha de Taciano e Helena, que Emmanuel descreve no romance "Ave Cristo", e que viveu no terceiro século depois de Jesus.

Enfim, para concluir, resta apenas dizer que "Meimei" era um apelido carinhoso que o casal Arnando-Irma passou a usar, após a leitura de um conto chamado "Um Momento em Pequim", de autor americano. Ambos passaram a se tratar dessa forma: "Meu Meimei". E, segundo Arnaldo, Chico não poderia saber disso.
(Meimei - expressão chinesa que significa "amor puro")

Materialização de Meimei

"Uma noite, sentimos um delicioso perfume. Intimamente, achei que era o mesmo que Meimei costumava usar. Surpreendi-me quando percebi que o corredor ia se iluminando aos poucos, como se alguém caminhasse por ele portando uma lanterna. Subitamente, a luminosidade extinguiu-se. Momentos depois, a sala iluminou-se novamente. No centro dela, havia como que uma estátua luminescente. Um véu cobria-lhe o rosto. Ergueu ambos os braços e, elegantemente, etereamente, o retirou, passando as mãos pela cabeça, fazendo cair uma cascata de lindos cabelos pretos, até a cintura. Era Meimei. Olhou-me, cumprimentou-me e dirigiu-se até onde eu estava sentado. Sua roupagem era de um tecido leve e transparente. Estava linda e donairosa! Levantei-me para abraçá-la e senti o bater de seu coração espiritual. Beijamo-nos fraternalmente e ela acariciou o meu rosto e brincou com minhas orelhas, como não podia deixar de ser. Ao elogiar sua beleza, a fragrância que emanava, a elegância dos trajes, em sua tênue feminilidade, disse-me: - "Ora, meu Meimei, aqui também nos preocupamos com a apresentação pessoal! A ajuda aos nossos semelhantes, o trabalho fraterno fazem-nos mais belos e, afinal de contas, eu sou uma mulher! Preparei-me para você, seu moço! Não iria gostar de uma Meimei feia!"

Texto de Arnaldo Rocha. Trecho do livro "Chico Xavier - Mandato de Amor". União Espírita Mineira - Belo Horizonte, 1992.

O livro dos espíritos

O Livro dos Espíritos
Parte Quarta – Capítulo 2
Penalidades e prazeres futuros

O nada. Vida futura – Intuição das penalidades e prazeres futuros – Intervenção de Deus nas penalidades e recompensas – Natureza das penalidades e prazeres futuros – Penalidades temporais – Expiação e arrependimento – Duração das penalidades futuras – Ressurreição da carne – Paraíso, inferno e purgatório
O nada. Vida futura

958 Por que o homem tem instintivamente horror ao nada?

– Porque o nada não existe.

959 De onde vem para o homem o sentimento instintivo da vida futura?

– Já dissemos: antes de sua encarnação, o Espírito conhecia todas as coisas, e a alma guarda uma vaga lembrança do que sabia e do que viu em seu estado espiritual. (Veja a questão 393.)

☼ Em todos os tempos, o homem se preocupou com seu futuro após a morte, e isso é bastante natural. Qualquer que seja a importância que dê à vida presente, não pode deixar de considerar quanto a vida é curta e, acima de tudo, precária, porque pode ser cortada a qualquer instante, e o homem nunca está seguro do dia de amanhã. Que será dele após o instante fatal? A questão é grave, porque não se trata de alguns anos, e sim da eternidade. Uma pessoa que deve passar longos anos num país estrangeiro se preocupa com a situação com que se defrontará. Portanto, como não nos devemos preocupar com a vida que teremos ao deixar este mundo, uma vez que é para sempre?

A idéia do nada tem algo contrário à razão. O homem que foi o mais despreocupado durante a vida, quando chega o momento supremo, pergunta-se em que vai se tornar e, involuntariamente, fica esperançoso.

Acreditar em Deus sem admitir a vida futura seria um contra-senso. O sentimento de uma existência melhor está no íntimo de cada homem; Deus não o colocou aí em vão.

A vida futura significa a conservação de nossa individualidade após a morte; o que nos importaria, de fato, sobreviver ao nosso corpo, se nossa essência moral tivesse de se perder no oceano do infinito? As conseqüências para nós seriam as mesmas que sumir no nada.
Intuição das penalidades e prazeres futuros

960 De onde vem a crença que se encontra em todos os povos das penalidades e recompensas futuras?

– É sempre a mesma coisa: pressentimento da realidade trazida ao homem pelo Espírito nele encarnado. Porque, sabei-o, não é em vão que uma voz interior vos fala; o erro está em não escutá-la com bastante atenção. Se pensásseis bem nisso e mais freqüentemente, melhores vos tornaríeis.

961 No momento da morte, qual é o sentimento que domina a maioria dos homens? A dúvida, o medo ou a esperança?

– A dúvida para os descrentes endurecidos, o medo para os culpados, a esperança para os homens de bem.

962 Por que existem descrentes, uma vez que a alma traz ao homem o sentimento das coisas espirituais?

– Existem menos do que se acredita; muitos se fazem espíritos fortes durante a vida por orgulho, mas no momento da morte não são tão fanfarrões.

☼ A conseqüência da vida futura decorre da responsabilidade de nossos atos. A razão e a justiça nos dizem que, na partilha da felicidade a que todo homem aspira, os bons e os maus não podem ser confundidos. Deus não pode querer que uns, sem esforço, desfrutem dos bens que outros alcançam com esforço e perseverança.

A idéia que Deus nos dá de sua justiça e bondade pela sabedoria de suas leis não nos permite acreditar que o justo e o mau estejam no mesmo plano aos seus olhos, nem duvidar que receberão um dia a recompensa ou a punição pelo bem ou mal que fizeram. É por isso que o sentimento natural que temos da justiça nos dá a intuição das penalidades e das recompensas futuras.
Intervenção de Deus nas penalidades e recompensas

963 Deus se ocupa pessoalmente de cada homem? Ele não é muito grande e nós muito pequenos para que cada indivíduo em particular tenha alguma importância aos seus olhos?

– Deus se ocupa de todos os seres que criou, por menores que sejam; nada é muito pequeno para sua bondade.

964 Deus tem necessidade de se ocupar de cada um de nossos atos para nos recompensar ou punir, e a maioria desses atos não são insignificantes para ele?

– Deus tem Suas leis que regem todas as vossas ações. Quando há violação da lei, a falta é vossa. Sem dúvida, quando um homem comete um excesso, Deus não pronuncia um julgamento contra ele, para dizer, por exemplo: “Foste guloso, vou te punir”. Porém, traçou um limite; as doenças e, freqüentemente, a morte, são conseqüências dos excessos: eis a punição; ela é o resultado da infração à lei. O mesmo acontece com todas as coisas.

☼ Todas as nossas ações estão submetidas às leis de Deus; não há nenhuma, por mais insignificante que pareça, que não possa ser uma violação. Ao sofrermos as conseqüências dessa violação, não devemos nos queixar senão de nós mesmos, que nos fazemos, assim, os próprios autores de nossa felicidade ou infelicidade futura.

Essa verdade torna-se clara pelo seguinte exemplo:

“Um pai dá a seu filho educação e instrução, ou seja, os meios de saber se conduzir. Dá-lhe também um campo para cultivar e diz: ‘Eis a regra a seguir e todos os instrumentos necessários para tornar este campo fértil e assegurar tua existência. Eu te dei a instrução para compreender esta regra; se a seguires, teu campo produzirá muito e te proporcionará o repouso para teus dias de velhice; caso contrário, não produzirá nada e morrerás de fome’. Dito isso, deixa-o agir por sua vontade, livremente.”

Não é verdade que esse campo produzirá de acordo com os cuidados dados à cultura e toda negligência será em prejuízo da colheita? O filho será, portanto, em sua velhice, feliz ou infeliz conforme tenha seguido ou não a regra traçada por seu pai. Deus é ainda mais previdente, porque nos adverte a cada instante se fazemos o bem ou o mal. Envia os Espíritos para nos inspirar, mas nós não os escutamos. Existe ainda a diferença de que Deus sempre dá ao homem um recurso nas suas novas existências para reparar seus erros passados, enquanto o filho de quem falamos não conta mais com isso se empregou mal seu tempo.
Natureza das penalidades e prazeres futuros

965 As penalidades e os prazeres da alma após a morte têm algo de material?

– Elas não podem ser materiais, porque a alma não é matéria: o bom senso o diz. Essas penalidades e prazeres nada têm de carnal e, entretanto, são mil vezes mais intensos que aqueles que experimentais na Terra, porque o Espírito, uma vez liberto do corpo, é mais impressionável; a matéria não enfraquece mais suas sensações. (Veja as questões 237 e 257).

966 Por que o homem faz das penalidades e dos prazeres da vida futura uma idéia freqüentemente tão grosseira e absurda?

– É porque sua inteligência ainda não se desenvolveu bastante. A criança compreende como o adulto? Aliás, também depende daquilo que lhe ensinaram: eis aí por que há a necessidade de uma reforma.

Vossa linguagem é muito incompleta para exprimir o que existe além do vosso entendimento; por isso, foi necessário fazer comparações, e são essas imagens e figuras que tomastes pela realidade; mas, à medida que o homem se esclarece, seu pensamento compreende as coisas que sua linguagem não pode exprimir.

967 Em que consiste a felicidade dos bons Espíritos?

– Consiste em conhecer todas as coisas; não ter ódio, ciúme, inveja, ambição e nenhuma das paixões que fazem a infelicidade dos homens. O amor que os une é a fonte de uma suprema felicidade. Eles não experimentam as necessidades e sofrimentos nem as angústias da vida material; ficam felizes com o bem que fazem. Porém, a felicidade dos Espíritos é sempre proporcional à sua elevação. Só os Espíritos puros desfrutam, é bem verdade, da felicidade suprema, mas todos os outros são também felizes. Entre os maus e os perfeitos existe uma infinidade de graus em que os prazeres são relativos à condição moral. Aqueles que estão bastante adiantados compreendem a felicidade dos mais avançados e desejam igualmente alcançá-la, o que é para eles um motivo de estímulo e não de ciúme. Sabem que depende deles consegui-la e trabalham para esse fim, mas com a calma da boa consciência, e são felizes por não sofrerem como os maus.

968 Colocais a ausência das necessidades materiais entre as condições de felicidade para os bons Espíritos; mas a satisfação dessas necessidades não é, para o homem, uma fonte de prazeres?

– Sim, de prazeres selvagens; e quando não podeis satisfazer essas necessidades, é uma tortura.

969 O que devemos entender quando se diz que os Espíritos puros estão reunidos no seio de Deus e ocupados em cantar louvores?

– É um modo de dizer, uma simbologia, para fazer entender o que eles têm das perfeições de Deus, já que O vêem e O compreendem, mas não a deveis tomar ao pé da letra como fazeis com muitas outras. Tudo na natureza, desde o grão de areia, canta, ou seja, proclama o poder, a sabedoria e a bondade de Deus. Não acrediteis que os Espíritos bem-aventurados vivam em contemplação por toda a eternidade; seria uma felicidade estúpida e monótona e seria ainda mais, uma felicidade egoísta, uma vez que sua existência seria uma inutilidade sem fim. Eles não têm mais as aflições da existência corporal: isso já é um prazer. Aliás, como já dissemos, conhecem e sabem todas as coisas; empregam útil e proveitosamente a inteligência que adquiriram para ajudar no progresso dos outros Espíritos: é sua ocupação e ao mesmo tempo um prazer.

970 Como são os sofrimentos dos Espíritos inferiores?

– São tão variados quanto as causas que os produziram e proporcionais ao grau de inferioridade, como os prazeres o são para os graus de superioridade. Podem resumir-se assim: invejar tudo o que lhes falta para serem felizes e não poderem obtê-lo; ver a felicidade e não poder atingi-la; desgosto, ciúme, raiva, desespero daquilo que os impede de ser felizes; remorso, ansiedade moral indefinível. Têm o desejo de todos os prazeres e não podem satisfazê-los, é o que os tortura.

971 A influência que os Espíritos exercem uns sobre os outros é sempre boa?

– Sempre boa da parte dos Espíritos bons, sem dúvida. Mas os Espíritos perversos procuram desviar do caminho do bem e do arrependimento aqueles que observam ser mais sujeitos de se deixar influenciar e que, muitas vezes, eles mesmos desviaram para o mal durante a vida corpórea.

971 a Assim, a morte não nos livra da tentação?

– Não; mas a ação que os maus Espíritos exercem sobre os outros Espíritos é muito menor do que sobre os homens, porque eles não têm mais o incentivo das paixões materiais. (Veja a questão 996.)

972 Como os maus Espíritos fazem para tentar outros Espíritos, uma vez que não possuem o auxílio das paixões?

– Se as paixões não existem materialmente, existem no pensamento dos Espíritos atrasados. Os maus alimentam os pensamentos deles arrastando suas vítimas para os lugares onde têm o espetáculo dessas paixões e tudo que pode excitá-las.

972 a Mas por que estimulam essas paixões, uma vez que não têm mais objetivo real?

– É precisamente para provocar o suplício: o avaro vê o ouro que não pode possuir; o libertino, orgias das quais não pode fazer parte; o orgulhoso, honras que inveja e de que não pode desfrutar.

973 Quais são os maiores sofrimentos que podem suportar os maus Espíritos?

– Não existe descrição possível das torturas morais que são a punição de certos crimes. Mesmo os que as sofrem teriam dificuldades para dar uma idéia delas; mas, certamente, a mais horrível é o fato de pensarem estar condenados para sempre. (Veja a questão 101.)

☼ O homem faz, dos desgostos e dos prazeres da alma após a morte, uma idéia mais ou menos elevada, de acordo com sua inteligência, que, quanto mais desenvolvida for, mais essa idéia se depura e mais se desprende da matéria; compreende as coisas sob um ponto de vista mais racional, em vez de tomar ao pé da letra imagens de uma linguagem figurada. A razão mais esclarecida, ao nos ensinar que a alma é um ser todo espiritual, nos diz, por isso mesmo, que ela não pode ser afetada pelas impressões que agem sobre a matéria, embora não esteja livre de sofrimentos nem de receber a punição de suas faltas. (Veja a questão 237.)

As comunicações espíritas têm o propósito de nos mostrar o estado futuro da alma, não como uma teoria, mas como uma realidade, ao colocar sob nossos olhos todas as ocorrências da vida após a morte, mostrando-as ao mesmo tempo como conseqüências perfeitamente lógicas da vida terrestre. E embora livre das idéias fantasiosas criadas pela imaginação dos homens, essas conseqüências não são menos angustiantes para aqueles que fizeram um mau uso de suas vontades e aptidões. A diversidade dessas conseqüências é infinita, mas pode-se dizer, de modo geral: cada um é corrigido pelas faltas que cometeu. É assim que uns são punidos pela visão incessante do mal que fizeram; outros, pelos desgostos, o medo, a vergonha, a dúvida, o isolamento, as trevas e pela separação dos seres que lhe são queridos, etc.

974 De onde vem a doutrina do fogo eterno?

– É uma imagem, assim como tantas outras tomadas como realidade.

974 a Esse medo não pode resultar em algo bom?

– Reparai que ele não serve de freio nem mesmo para aqueles que o ensinam. Se ensinais coisas que a razão rejeita mais tarde, fareis surgir uma situação que não será nem durável nem salutar.

☼ O homem, não podendo exprimir por sua linguagem a natureza daqueles sofrimentos, não encontrou comparação mais enérgica que a do fogo, porque, para ele, o fogo é a espécie de suplício mais cruel e o símbolo da ação mais enérgica; por isso a crença no fogo eterno remonta à mais alta Antiguidade, e os povos modernos a herdaram dos povos antigos. É por isso que, em sua linguagem figurada, diz: o fogo das paixões; arder de amor, de ciúme, etc.

975 Os Espíritos inferiores compreendem a felicidade do justo?

– Sim, é o que faz seu suplício; porque compreendem que são privados dela por sua culpa e por essa razão o Espírito, livre da matéria, deseja ardentemente uma nova existência corporal, porque cada existência pode abreviar a duração desse suplício, se for bem empregada. É então que faz a escolha das provas pelas quais poderá reparar suas faltas; porque, sabei, o Espírito sofre por todo mal que praticou ou de que foi causa voluntária, por todo bem que poderia ter feito e não fez e pelo mal que resulta do bem que deixou de fazer. O Espírito no mundo espiritual não tem mais o véu da matéria. Como se tivesse saído do nevoeiro, ele vê o que causa o seu afastamento da felicidade; então, sofre mais, porque compreende quanto foi culpado. Não há mais ilusão: ele vê a realidade das coisas.

☼ O Espírito, no mundo espiritual, toma conhecimento, por um lado, de todas as suas existências passadas e, por outro, vê o futuro prometido e avalia o que falta para o atingir. Como um viajante que chega ao alto de uma montanha, vê o caminho já percorrido e o que falta percorrer para atingir seu objetivo.

976 Os bons Espíritos se afligem e sofrem ao ver a situação dos maus e, nesse caso, como fica sua felicidade se for perturbada?

– Não sentem nenhuma aflição, uma vez que sabem que o mal terá fim. Eles auxiliam os maus a se melhorarem e estendem-lhes a mão: aí está sua ocupação e o seu prazer, quando têm êxito.

976 a Isso acontece em relação a Espíritos estranhos ou indiferentes; mas a visão dos pesares e sofrimentos daqueles a quem amaram na Terra não perturba sua felicidade?

– Como já dissemos, os Espíritos vêem o que querem, e porque não lhes sois estranhos é que vêem e se importam com os vossos sofrimentos depois da morte. Porém, consideram essas aflições sob um outro ponto de vista, porque sabem que esse sofrimento é útil ao vosso adiantamento se o suportardes sem lamentações. Mas se afligem muito mais com a falta de coragem do que com os sofrimentos que sabem ser apenas passageiros.

977 Os Espíritos, não podendo esconder os pensamentos uns dos outros e sendo todos os atos da vida conhecidos, significa que o culpado esteja na presença perpétua de sua vítima?

– Isso não pode ser de outro modo, o bom senso o diz.

977 a Essa divulgação de todos os nossos atos condenáveis e a presença constante das vítimas são um castigo para o culpado?

– Maior do que se pensa; mas apenas até que tenha reparado suas faltas, como Espírito ou como homem em novas existências corporais.

☼ Quando estivermos no mundo dos Espíritos e nosso passado se mostrar a descoberto, o bem e o mal que fizemos serão igualmente conhecidos. Em vão aquele que fez o mal tentará escapar à visão de suas vítimas: sua presença inevitável será um castigo e um remorso incessante até que tenha reparado seus erros, enquanto o homem de bem, pelo contrário, só encontrará em toda parte olhares amigos e benevolentes. Para o mau não existe maior tormento na Terra do que a presença de suas vítimas; é por isso que as evita sem cessar. O que será dele quando, dissipada a ilusão das paixões e tendo compreendido o mal que fez, vir seus atos mais secretos revelados, sua hipocrisia desmascarada e não puder fugir à visão desses fatos?

Enquanto a alma do homem perverso está atormentada pela vergonha, o desgosto e remorso, a do justo desfruta de uma serenidade perfeita.

978 A lembrança das faltas que a alma cometeu, quando era imperfeita, não perturba sua felicidade, mesmo após estar depurada?

– Não, porque resgatou suas faltas e saiu vitoriosa das provas a que se submeteu com esse objetivo.

979 As provas que restam a suportar para terminar a purificação não são para a alma uma apreensão pesarosa que perturba sua felicidade?

– Para a alma que ainda está impura, sim; por isso não pode desfrutar de uma felicidade perfeita senão quando estiver completamente pura; mas para a alma que já se elevou, o pensamento das provas que restam a suportar não tem nada de pesaroso.

☼ A alma que atingiu certo grau de pureza já desfruta da felicidade. Um sentimento de doce satisfação a penetra e fica feliz com tudo que vê, com tudo que a cerca; ergue-se para ela o véu que encobria os mistérios, e as maravilhas da Criação e as perfeições divinas se mostram em todo o seu esplendor.

980 O laço de simpatia que une os Espíritos da mesma ordem é para eles uma fonte de felicidade?

– A união dos Espíritos que simpatizam com o bem é, para eles, um dos maiores prazeres, porque não temem ver essa união perturbada pelo egoísmo. Eles formam, no mundo espiritual, famílias com o mesmo sentimento, e nisso consiste a felicidade espiritual, assim como na Terra vos agrupais por categorias e sentis um certo prazer quando estais reunidos. A afeição pura e sincera que sentem e da qual são os agentes é uma fonte de felicidade, porque lá não há falsos amigos nem hipócritas.

☼ O homem sente as primícias1 dessa felicidade na Terra quando encontra as almas com as quais pode juntar-se numa união pura e santa. Em uma vida mais depurada, esse prazer será extasiante e sem limites, porque só encontrará almas simpáticas livres do egoísmo. Porque tudo é amor na natureza; é o egoísmo que o mata.

981 Existe para a condição futura do Espírito uma diferença entre aquele que durante a vida temia a morte e outro que a encarava com indiferença e até mesmo com alegria?

– A diferença pode ser muito grande; entretanto, acaba freqüentemente diante das causas que geram esse medo ou esse desejo. Tanto quem a teme quanto quem a deseja pode estar movido por sentimentos muito diferentes e são esses sentimentos que influem na condição do Espírito. É evidente, por exemplo, naquele que deseja a morte unicamente por que vê nela o fim de suas aflições, revelar-se uma espécie de revolta contra a Providência e contra as provas que deve suportar.

982 É necessário crer no Espiritismo e nas manifestações dos Espíritos para assegurar nosso bom êxito na vida futura?

– Se assim fosse, todos os que não crêem ou que não tiveram a oportunidade de se esclarecer seriam deserdados, o que seria absurdo. Só a prática do bem assegura o bom êxito no futuro. Portanto, o bem é sempre o bem, seja qual for o caminho que a ele conduz. (Veja as questões 165 e 799.)

☼ A compreensão do Espiritismo ajuda o homem a se melhorar, ao comprovar as idéias sobre certos pontos do futuro; apressa o adiantamento dos indivíduos e das massas, porque permite conhecer o que seremos um dia; é um ponto de apoio, uma luz que nos guia. O Espiritismo ensina o homem a suportar as provas com paciência e resignação; desvia-o dos atos que podem retardar sua felicidade futura. É assim que contribui para essa felicidade, mas não diz que só por ele se pode alcançá-la.
Penalidades temporais

983 Se o Espírito que repara suas faltas numa nova existência passa por sofrimentos materiais, é certo dizer que após a morte a alma tem apenas sofrimentos morais?

– É bem verdade que a alma, quando está reencarnada, considera as aflições da vida um sofrimento, mas é apenas o corpo que sofre materialmente.

Dizeis, freqüentemente, daquele que está morto, que não sofre mais; porém, isso nem sempre é verdade. Como Espírito, não tem dores físicas; mas, de acordo com as faltas que cometeu, pode ter dores morais mais torturantes e, numa nova existência, pode ser ainda mais infeliz. O mau rico pedirá esmola e será vítima de todas as privações da miséria, e o orgulhoso passará todas as humilhações; aquele que abusa de sua autoridade e trata seus subordinados com desprezo e dureza será forçado a obedecer a um senhor mais duro do que ele foi. Todos os sofrimentos e aflições da vida são a expiação das faltas de uma outra existência, quando já não são a conseqüência das faltas da vida atual. Quando tiverdes saído daqui, compreendereis isso muito bem. (Veja as questões 273, 393 e 399.)

O homem que pensa ser feliz na Terra por satisfazer suas paixões é o que menores esforços faz para se melhorar. Muitas vezes repara já nessa vida, apesar dessa felicidade efêmera, mas certamente a expiará em uma outra existência, também toda material.

984 As dificuldades da vida terrena são sempre resultantes das faltas da existência atual?

– Não; já dissemos: são provas concedidas pela Providência ou escolhidas por vós mesmos em Espírito antes dessa encarnação, para reparar as faltas cometidas numa existência anterior; porque toda transgressão às leis de Deus, especialmente à lei de justiça, deve ser compensada por um esforço equivalente de correção, no presente ou no futuro.

A justeza da justiça é própria da lei: conseqüentemente, quando uma pessoa boa e justa, aos vossos olhos, vive em dificuldades, está submetida a uma correção de seus próprios erros do passado. (Veja a questão 393.)

985 A reencarnação da alma num mundo mais elevado é uma recompensa?

– É a conseqüência de sua depuração; porque, à medida que os Espíritos se depuram, encarnam em mundos cada vez mais perfeitos, até que se tenham libertado de toda a matéria e se livrado de todas as impurezas, para desfrutar eternamente a felicidade dos Espíritos puros na presença de Deus.

☼ Nos mundos onde a existência é menos material do que na Terra, as necessidades são menos grosseiras e todos os sofrimentos físicos são de menor intensidade. Os homens não conhecem mais as más paixões que nos mundos inferiores os fazem inimigos uns dos outros. Não tendo nenhum motivo de ódio nem de ciúme, vivem entre si em paz, porque praticam a lei de justiça, amor e caridade. Não conhecem as mágoas e as angústias que nascem da inveja, do orgulho e do egoísmo, que fazem de nossa existência terrena um verdadeiro tormento. (Veja as questões 172 e 182.)

986 O Espírito que progrediu em sua existência terrena pode algumas vezes reencarnar no mesmo mundo?

– Sim; se não pôde levar ao fim sua missão, ele mesmo pode pedir para completá-la numa nova existência, que não será mais para ele uma expiação. (Veja a questão 173.)

987 Que será da pessoa que, sem fazer o mal, também nada faz para libertar-se da influência da matéria?

– Uma vez que não dá nenhum passo para se melhorar, deve recomeçar uma existência igual à que deixou; permanece estacionário e, dessa forma, pode prolongar os sofrimentos da reparação.

988 Existem pessoas cuja vida flui numa calma perfeita; que, não tendo necessidade de fazer nada por si mesmas, são livres de preocupações. Essa existência feliz é uma prova de que não têm nada para reparar de uma existência anterior?

– Conheceis muitas dessas pessoas? Se achais que sim, é um engano. Muitas vezes, a calma é apenas aparente. Elas podem ter escolhido essa existência, mas, quando a deixam, percebem que ela não as ajudou a progredir; e, então, como o preguiçoso, lamentam o tempo perdido. Sabei que o Espírito pode apenas adquirir conhecimentos e se elevar pela atividade; se ele se entrega à preguiça, não avança. É semelhante àquele que tem necessidade, de acordo com vossos costumes, de trabalhar, e vai passear ou se deitar, com a intenção de não fazer nada. Sabei também que cada um prestará contas da inutilidade voluntária de sua existência; essa inutilidade é sempre fatal à felicidade futura. A felicidade futura está para o homem em razão da soma do bem que faz; a da infelicidade em razão do mal praticado e das infelicidades que tenham feito.

989 Existem pessoas que, sem serem completamente más, tornam infelizes, pelo seu temperamento, as que com elas convivem; qual é a conseqüência disso para elas?

– Essas pessoas, seguramente, não são boas. Repararão suas faltas tendo sempre presentes na visão a imagem dos que fez infelizes. Isso será para elas uma reprovação; depois, em outra existência, sofrerão o que fizeram sofrer.
Expiação e arrependimento

990 O arrependimento se dá na vida física ou na espiritual?

– Na vida espiritual; mas também pode ocorrer na física, quando chegais a compreender a diferença entre o bem e o mal.

991 Qual a conseqüência do arrependimento na vida espiritual?

– O desejo de uma nova encarnação para se purificar. O Espírito compreende as imperfeições que o impedem de ser feliz e por isso anseia por uma nova existência em que poderá reparar suas faltas. (Veja as questões 332 e 975.)

992 E o arrependimento ainda na vida física?

– É um começo de progresso, já na vida presente, se houver tempo de reparar suas faltas. Quando a consciência aponta um erro e mostra uma imperfeição, sempre se pode melhorar.

993 Não existem pessoas que só têm o instinto do mal e são inacessíveis ao arrependimento?

– Já vos disse que o Espírito deve progredir sem parar. Aquele que nesta vida tem apenas o instinto do mal terá o do bem numa outra, e é para isso que renasce muitas vezes, porque é preciso que todos avancem e atinjam o objetivo. Apenas uns o alcançam num tempo mais curto; outros, num tempo mais longo, de acordo com a sua vontade. Aquele que tem apenas o instinto do bem já está depurado, mas pode ter tido o do mal numa existência anterior. (Veja a questão 804.)

994 A pessoa que não reconheceu suas faltas durante a vida sempre as reconhece depois da morte?

– Sim, sempre as reconhece, e então sofre mais, porque sente todo o mal que fez ou de que foi causa voluntária. Entretanto, o arrependimento nem sempre é imediato. Há Espíritos que teimam nas inclinações negativas, apesar dos seus sofrimentos; mas, cedo ou tarde, reconhecerão o caminho falso, e o arrependimento virá. É para esclarecê-los que trabalham os bons Espíritos, e vós também podeis trabalhar nesse sentido.

995 Existem Espíritos que, sem serem maus, são indiferentes à sua sorte?

– Existem Espíritos que não se ocupam com nada de útil: estão sempre na expectativa; mas é uma situação de sofrimento. Como em tudo deve haver progresso, esse progresso se manifesta neles pela dor.

995 a Eles não têm o desejo de abreviar seus sofrimentos?

– Eles o têm, sem dúvida, mas não têm vontade suficiente para querer o que poderia aliviá-los. Quantas pessoas há dentre vós que preferem morrer de fome a trabalhar?

996 Uma vez que os Espíritos vêem o mal causado pelas suas imperfeições, como se explica que existam os que agravam essa situação e prolongam sua condição de inferioridade fazendo o mal como Espíritos, afastando os homens do bom caminho?

– Espíritos que agem assim são aqueles em que o arrependimento é tardio. O Espírito que se arrepende pode se deixar arrastar de novo pelas tendências inferiores, por outros Espíritos ainda mais atrasados. (Veja a questão 971.)

997 Vemos Espíritos de uma inferioridade notória acessíveis aos bons sentimentos e tocados pelas preces feitas para eles. Como se explica que outros Espíritos, aparentemente mais esclarecidos, mostrem um endurecimento e cinismo completos?

– A prece apenas tem efeito em favor do Espírito que se arrepende. Para aquele que, possuído pelo orgulho, revolta-se contra Deus e persiste nos seus desatinos, exagerando-os ainda mais, como fazem os Espíritos infelizes, a prece nada pode e nada poderá, até o dia em que uma luz de arrependimento o esclareça. (Veja a questão 664.)

☼ Não se deve esquecer que o Espírito, após a morte do corpo, não está subitamente transformado. Se sua vida foi reprovável, é porque foi imperfeito; portanto, a morte não o torna imediatamente perfeito. Pode persistir em seus erros, suas falsas opiniões e preconceitos até que seja esclarecido pelo estudo, reflexão e sofrimento.

998 A reparação ocorre na vida corporal ou na espiritual?

– A reparação ocorre durante a vida física pelas provas a que o Espírito é submetido, e na vida espiritual pelos sofrimentos morais ligados à inferioridade do Espírito.

999 O arrependimento sincero durante a vida basta para apagar as faltas e merecer a graça de Deus?

– O arrependimento ajuda no adiantamento do Espírito, mas o passado deve ser reparado.

999 a De acordo com isso, se um criminoso dissesse que, tendo de reparar seu passado, não tem necessidade de se arrepender, o que isso resultaria para ele?

– Se teima e persiste no pensamento do mal, sua expiação será mais longa e mais dolorosa.

1000 Podemos, ainda na vida física, resgatar nossas faltas?

– Sim, reparando-as; mas não penseis resgatá-las por algumas renúncias infantis ou fazendo a caridade após a morte, quando não tiverdes mais necessidade de nada. Deus não dá valor ao arrependimento estéril, sempre fácil, e que custa apenas o esforço de se bater com a mão no peito. A perda de um dedo mínimo, no trabalho, apaga mais faltas que o suplício do corpo suportado durante anos, sem outro objetivo além do bem de si mesmo. (Veja a questão 726.) O mal apenas é reparado pelo bem, e a reparação não tem nenhum mérito se não atingir a pessoa no seu orgulho, nos seus interesses materiais.

De que vale, para sua justificação, restituir, após a morte, os bens irregularmente adquiridos, dos quais tirou proveito durante a vida, e que agora para nada servem? De que adianta renunciar a alguns prazeres fúteis e a coisas supérfluas, se a falta que cometeu com os outros permanece a mesma? De que serve, enfim, se humilhar perante Deus, se conserva seu orgulho diante dos homens? (Veja as questões 720 e 721.)

1001 Não haverá nenhum mérito em assegurar, após a morte, um emprego útil dos bens que possuímos?

– Nenhum mérito não é o termo. Isso sempre é melhor do que nada; mas o mal é que aquele que doa seus bens depois da morte freqüentemente é mais egoísta do que generoso; quer ter a honra do bem, mas não o trabalho de o fazer. Quando renuncia em favor de outros, durante sua vida, tem duplo proveito: o mérito do sacrifício e o prazer de ver felizes aqueles que lhe devem a felicidade. Mas o egoísmo está presente quando lhe diz: “O que tu dás tiras de teus prazeres”; e como o egoísmo fala mais alto que o desinteresse e a caridade, ele guarda o que possui a pretexto de suas necessidades pessoais e das exigências de sua posição. Lastimai aquele que não conhece o prazer de dar; este é verdadeiramente deserdado de um dos mais puros e mais delicados prazeres. Deus, ao submetê-lo à prova da riqueza, tão escorregadia e perigosa para seu futuro, quis lhe dar como compensação a felicidade de ser generoso, da qual pode desfrutar já aqui na Terra. (Veja a questão 814.)

1002 O que deve fazer aquele que, no último momento da vida, reconhece suas faltas, mas não tem tempo de repará-las? Basta, nesse caso, arrepender-se?

– O arrependimento apressa a reabilitação, mas não o absolve. Não tem diante de si o futuro que nunca se fecha?
Duração das penalidades futuras

1003 A duração dos sofrimentos para um culpado, numa vida futura, é sem regras ou segue uma lei?

– Deus não age por capricho, e tudo no universo é regido por leis que revelam sua sabedoria e bondade.

1004 O que determina a duração dos sofrimentos para o culpado?

– O tempo necessário ao seu melhoramento. A condição de sofrimento ou felicidade, sendo proporcional ao grau de depuração do Espírito, faz com que a duração e a natureza dos sofrimentos dependam do tempo que leva para se melhorar. À medida que progride e seus sentimentos se depuram, seus sofrimentos diminuem e mudam de natureza.

São Luís

1005 Para o Espírito sofredor, o tempo parece ser mais ou menos longo do que quando estava encarnado?

– Parece mais longo: o sono não existe para ele. Só para os Espíritos que atingiram um certo grau de depuração o tempo se funde, por assim dizer, diante do infinito. (Veja a questão 240.)

1006 A duração dos sofrimentos do Espírito pode ser eterna?

– Sem dúvida, se ele fosse eternamente mau, isto é, se nunca se melhorasse nem se arrependesse sofreria eternamente. Mas Deus não criou seres para serem voltados perpetuamente ao mal; apenas os criou simples e ignorantes, e todos devem progredir num tempo mais ou menos longo, de acordo com a vontade de cada um. A vontade pode ser mais ou menos tardia, assim como existem crianças mais ou menos precoces, mas se manifestará cedo ou tarde pela irresistível necessidade que o Espírito sente de sair de sua inferioridade e ser feliz. A lei que rege a duração dos sofrimentos é, portanto, eminentemente sábia e benevolente, uma vez que subordina a sua duração aos esforços do Espírito para se melhorar. Nunca interfere no seu livre-arbítrio: se faz mau uso, dele sofre as conseqüências.

São Luís

1007 Existem Espíritos que nunca se arrependem?

– Existem aqueles em que o arrependimento é muito tardio; mas afirmar que nunca se melhorarão seria negar a lei do progresso, como afirmar que a criança não pode se tornar adulta.

São Luís

1008 A duração dos sofrimentos depende sempre da vontade do Espírito, ou existem aqueles que são impostos por um tempo determinado?

– Sim, os sofrimentos podem ser impostos por um tempo; mas Deus, que deseja apenas o bem de suas criaturas, sempre acolhe o arrependimento, e o desejo de se melhorar nunca é inútil.

São Luís

1009 Desse modo, os sofrimentos impostos nunca serão por toda a eternidade?

– Interrogai o bom senso, a razão, e perguntai-vos se uma condenação perpétua por causa de alguns momentos de erro não seria a negação da bondade de Deus. O que é, de fato, a duração da vida, mesmo de cem anos, em relação à eternidade? Eternidade! Compreendei bem essa palavra? Sofrimentos, torturas sem fim, sem esperança, por algumas faltas! Vossa razão não rejeita uma idéia dessa? É compreensível que os antigos tenham visto no Senhor do universo um Deus terrível, ciumento e vingativo. Em sua ignorância, atribuíam à Divindade as paixões dos homens. Porém, esse não é o Deus que o Cristo nos revelou, que coloca como virtudes primordiais o amor, a caridade, a misericórdia e o esquecimento das ofensas. Poderia Ele próprio não ter as qualidades das quais faz um dever? Não há contradição em atribuir ao Criador a bondade infinita e a vingança também infinita? Ensinai, antes de mais nada, que Ele é justo em Sua perfeição e que o homem não compreende Sua justiça. Mas a justiça não exclui a bondade, e Ele não seria bom se condenasse aos mais horríveis e perpétuos sofrimentos a maior parte de suas criaturas. Teria o direito de fazer da justiça uma obrigação para seus filhos, se não lhes tivesse dado os meios de compreendê-la? Aliás, a sublimidade da justiça, unida à bondade, está em fazer com que a duração dos sofrimentos dependa dos esforços que o transgressor faça para se melhorar. Eis a verdade destas palavras: “A cada um segundo suas obras”.

Santo Agostinho

Esforçai-vos, por todos os meios ao vosso alcance, em combater, destruir a idéia dos castigos eternos, pensamento blasfemo, ultrajante para com a justiça de Deus. Esse pensamento é a fonte mais fecunda da incredulidade, do materialismo e da indiferença que invadiu as massas humanas desde que sua inteligência começou a se desenvolver. O Espírito, prestes a se esclarecer, ou apenas saído da ignorância, logo compreende a monstruosa injustiça; sua razão a rejeita e, então, freqüentemente, sente a mesma rejeição ao sofrimento que o revolta e a Deus, a quem o atribui; daí os males inumeráveis que vieram se unir aos vossos e para os quais viemos trazer remédio. A tarefa que apontamos será tão mais fácil quanto é certo que as autoridades sobre as quais se apóiam os defensores dessa crença têm todas evitado de se pronunciar sobre elas formalmente. Nem os concílios2, nem os Pais da Igreja3 resolveram essa questão. Mesmo de acordo com os próprios evangelistas, e tomando ao pé da letra as palavras simbólicas do Cristo, ele ameaçou os culpados com um fogo que não se apaga, com um fogo eterno; porém, não há absolutamente nada nessas palavras que prove que ele os condenou eternamente.

Pobres ovelhas desgarradas, sabei deixar vir até vós o bom Pastor que, longe de vos banir para sempre de sua presença, vem ao vosso encontro para vos reconduzir ao aprisco4. Filhos pródigos, deixai o exílio voluntário; dirigi vossos passos à morada paternal: o Pai estende os braços e se mostra sempre pronto a festejar vosso retorno à família.

Lammenais

Guerras de palavras! Guerras de palavras! Já não fizestes derramar sangue suficiente? Será ainda preciso reacender as fogueiras? Discutem-se os temas: eternidade das penalidades, eternidade dos castigos; deveis compreender que o que entendeis hoje por eternidade não é o mesmo que entendiam os antigos.

Se o teólogo consultar as fontes, descobrirá, como vós, que o texto hebreu não dava às palavras penas sem fim e irremissíveis o mesmo significado dado pelos gregos, os latinos e os modernos nas suas traduções. Eternidade dos castigos corresponde à eternidade do mal. Sim, enquanto o mal existir entre os homens, os sofrimentos subsistirão; é em sentido relativo que se devem interpretar os textos sagrados. A eternidade dos sofrimentos é, portanto, apenas relativa, e não absoluta. Quando chegar o dia em que todos os homens, pelo arrependimento, se revestirem da túnica da inocência, não haverá mais gemidos nem ranger de dentes. A razão humana é limitada, é bem verdade, mas mesmo assim é um presente de Deus. Assim, com a ajuda da razão, não existe uma única pessoa de boa-fé que não seja capaz de compreender a natureza relativa da noção de castigos eternos! Castigos eternos! Como? Seria preciso, então, admitir que o mal é eterno! Somente Deus é eterno e não poderia ter criado o mal eterno, porque assim seria preciso lhe tirar o mais magnífico de seus atributos: o poder soberano, porque não seria soberanamente poderoso aquele que criasse um elemento destruidor de suas próprias obras. Humanidade! Humanidade! Não mergulhes mais tristes olhares nas profundezas da Terra para lá procurar os castigos. Chora, espera, arrepende-te, repara os erros e refugia-te no pensamento de um Deus infinitamente amoroso, absolutamente poderoso, essencialmente justo.

Platão

Gravitar para a unidade divina, esta é a meta da humanidade. Para atingi-la, três coisas são necessárias: a justiça, o amor e a ciência; três coisas lhe são opostas e contrárias: a ignorância, o ódio e a injustiça. Pois bem! Eu vos digo, em verdade, que falseais esses princípios fundamentais, comprometendo a idéia de Deus ao exagerar uma severidade que Ele não tem. Vós a comprometeis mais ainda incutindo no espírito da criatura a idéia de que ela mesmo possui mais clemência, bondade, amor e verdadeira justiça do que o Criador. Vós destruís até mesmo a idéia de inferno ao torná-lo ridículo e inadmissível às vossas crenças, como é para vossos corações o horrendo espetáculo das execuções, fogueiras e torturas da Idade Média! Mas, como? Será que agora, quando a era das represálias foi banida pela legislação humana, é que esperais mantê-la viva? Acreditai em mim, irmãos em Deus e em Jesus Cristo, acreditai em mim, ou resignai-vos a deixar morrer em vossas mãos todos os dogmas, em vez de os modificar, ou, então, vivificai-os, abrindo-os às idéias puras que os bons Espíritos derramam neles neste momento. A idéia de inferno, com suas fornalhas ardentes, suas caldeiras fervilhantes, pode ser tolerada, num século de ferro; mas atualmente não é mais que um fantasma, quando muito para amedrontar criancinhas, e no qual elas mesmas não acreditam mais quando crescem. Insistir nessa mitologia assustadora é incentivar a incredulidade, mãe de toda desorganização social. Tremo ao ver toda uma ordem social abalada e a ruir sobre suas bases, por falta de sanção penal condizente. Homens de fé ardente e viva, vanguardeiros do dia da luz, mãos à obra! Não para manter fábulas ultrapassadas que perderam o crédito, mas para reavivar, restaurar o verdadeiro sentido da sanção penal, de forma que estejam de acordo com os costumes, sentimentos e as luzes de vossa época.

Quem é, de fato, o culpado? É aquele que, por um desvio, por um falso movimento da alma, se afasta do objetivo da Criação, que consiste no culto harmonioso do belo, do bem, idealizados pelo arquétipo5 humano, pelo Homem-Deus, por Jesus Cristo.

Que é o castigo? A conseqüência natural, derivada desse falso movimento; uma soma de dores necessárias para fazê-lo desgostar, detestar a sua deformidade, pela prova do sofrimento. O castigo é o aguilhão que estimula a alma, pela amargura, a se curvar sobre si mesma e retornar ao caminho da salvação. O objetivo do castigo é apenas a reabilitação, a redenção. Querer que o castigo seja eterno, por uma falta que não é eterna, é negar toda a sua razão de ser.

Eu vos digo em verdade, basta, chega de colocar em paralelo na eternidade o bem, essência do Criador, com o mal, essência da criatura; isso seria criar uma penalidade injustificável. Afirmai, ao contrário, o amortecimento gradual dos castigos e das penalidades pelas reencarnações sucessivas e consagrai, com a razão unida ao sentimento, a unidade divina.

Paulo, Apóstolo

☼ Procura-se estimular o homem ao bem e desviá-lo do mal por meio do atrativo das recompensas e medo dos castigos. Mas se esses castigos são apresentados de maneira que a razão se recuse a acreditar neles, não terão nenhuma influência. Longe disso, rejeitará tudo: a forma e o fundo. Que se apresente, ao contrário, o futuro, de uma maneira lógica, e então o homem não mais o rejeitará. O Espiritismo lhe dá essa explicação.

A doutrina da eternidade dos castigos, no sentido absoluto, faz do ser supremo um Deus implacável. Seria lógico dizer de um soberano que ele é muito bom, benevolente, indulgente, que deseja apenas a felicidade daqueles que o cercam, mas ao mesmo tempo que é ciumento, vingativo, inflexível em seu rigor, e que pune, com extremo castigo, a maioria de seus súditos por uma ofensa ou infração às suas leis, mesmo aqueles que erraram por não ter conhecimento? Isso não seria uma contradição? Portanto, pode Deus ser menos bom do que seria um homem?

Uma outra contradição se apresenta aqui. Uma vez que Deus sabe tudo, sabia que ao criar uma alma ela falharia; ela foi, portanto, desde sua formação, destinada à infelicidade eterna: isso é possível, é racional? Com a doutrina das penalidades relativas, tudo se justifica. Deus sabia, sem dúvida, que ela falharia, mas lhe dá os meios de se esclarecer por sua própria experiência, mediante suas próprias faltas. É necessário que repare seus erros para melhor se firmar no bem, mas a porta da esperança não lhe é fechada para sempre, e Deus faz com que sua liberdade dependa dos esforços que faça para atingir o objetivo. Isso todos podem compreender e a lógica mais meticulosa pode admitir. Se as penalidades futuras tivessem sido apresentadas sob esse ponto de vista, haveria bem menos descrentes.

A palavra eterno é freqüentemente empregada, na linguagem comum, com uma significação figurada, para designar uma coisa de longa duração e da qual não se prevê o fim, embora se saiba muito bem que esse fim existe.

Dizemos, por exemplo, os gelos eternos das altas montanhas, dos pólos, embora saibamos, de um lado, que o mundo físico pode ter um fim, e, de outro, que o estado dessas regiões pode mudar por causa do deslocamento normal do eixo da Terra ou por um cataclismo. A palavra eterno, nesse caso, não quer dizer perpétuo até o infinito. Quando sofremos com uma longa doença, dizemos que nosso mal é eterno. O que há, portanto, de estranho que esses Espíritos, ao sofrerem como sofrem, há anos, há séculos, até mesmo há milhares de anos, o digam dessa mesma forma e se expressem assim? É preciso lembrar, principalmente, que sua inferioridade não lhes permite ver a extremidade do caminho, acreditam sofrer sempre, e isso é para eles uma punição.

Afinal, a doutrina do fogo, das fornalhas e torturas, copiadas do Tártaro6, do paganismo, foi hoje completamente abandonada pela alta teologia, e só nas escolas esses pavorosos quadros alegóricos ainda são apresentados como verdades positivas por certos homens, mais zelosos que esclarecidos, e isso é um grave erro, porque as imaginações juvenis, libertando-se de seus terrores, poderão aumentar o número de incrédulos. A teologia reconhece hoje que a palavra fogo é usada no sentido figurado na Bíblia e deve ser entendida como um estado mental, um fogo moral. (Veja a questão 974.) Aqueles que, como nós, acompanham as ocorrências da vida e os sofrimentos após a morte pelas comunicações espíritas, puderam se convencer de que, por não ter nada de material, não são menos dolorosos. Com relação à sua duração, certos teólogos começam a admiti-las no sentido restrito indicado acima e pensam que, de fato, a palavra eterno pode se referir aos castigos, em si mesmos, como conseqüência de uma lei imutável, e não à sua aplicação a cada indivíduo. No dia em que a religião admitir essa interpretação, assim como algumas outras que são igualmente a conseqüência do progresso das luzes, reunirá muitas ovelhas desgarradas.
Ressurreição da carne

1010 O dogma da ressurreição da carne é a consagração da reencarnação ensinada pelos Espíritos?

– Como quereis que fosse de outro modo? Como acontece com outras palavras, estas apenas parecem despropositadas aos olhos de certas pessoas quando são tomadas ao pé da letra. É por isso que levam à incredulidade. Mas dai-lhes uma interpretação lógica, e aqueles que chamais livres-pensadores a admitirão sem dificuldade, precisamente porque raciocinam. Não vos enganeis, os livres-pensadores anseiam e desejam crer. Eles têm, como os outros, e até mais, sede de futuro, mas não podem admitir o que a ciência desmente. A doutrina da pluralidade das existências está de acordo com a justiça de Deus, apenas ela pode explicar o inexplicável; como querer que o seu princípio não esteja na própria religião?

1011 Assim a Igreja, pelo dogma da ressurreição da carne, ensina a doutrina da reencarnação?

– É evidente. Essa doutrina é, aliás, a conseqüência de muitas coisas que passaram despercebidas e dentro em pouco serão, nesse sentido, reconhecidas. Em breve, se reconhecerá aquilo que o Espiritismo ressalta a cada passo, até mesmo do texto das Escrituras sagradas. Os Espíritos não vêm, portanto, subverter a religião, como alguns pretendem; vêm, ao contrário, confirmá-la, sancioná-la por provas irrecusáveis; mas, como chegou o tempo de não mais empregar a linguagem figurada, exprimem-se sem alegoria e dão às coisas um sentido claro e preciso, que não possa estar sujeito a nenhuma interpretação falsa. Eis por que, daqui a algum tempo, tereis mais pessoas sinceramente religiosas e crentes do que tendes hoje.

São Luís

☼ A ciência, de fato, demonstra a impossibilidade da ressurreição de acordo com a idéia que se faz dela. Se os despojos do corpo humano permanecessem homogêneos, embora dispersos e reduzidos a pó, ainda se conceberia sua união em um determinado tempo; mas as coisas não se passam assim. O corpo é formado de diversos elementos: oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono, etc. Pela decomposição, esses elementos se dispersam e vão servir à formação de novos corpos, de modo que a mesma molécula, de carbono, por exemplo, terá entrado na composição de muitos milhares de corpos diferentes (falamos apenas dos corpos humanos, sem contar os dos animais). É possível que determinado indivíduo tenha, talvez, em seu corpo moléculas que pertenceram aos homens das idades primitivas; que essas mesmas moléculas orgânicas que absorveis em vosso alimento provenham talvez do corpo de um indivíduo que conhecestes, e assim por diante. Estando a matéria em quantidade definida e suas transformações em quantidades indefinidas, como cada um desses corpos poderia se reconstituir dos mesmos elementos? Existe aqui uma impossibilidade material. Não se pode, portanto, admitir racionalmente a ressurreição da carne a não ser como uma figura que simboliza o fenômeno da reencarnação, e então não há nada mais em choque com a razão, nada que esteja em contradição com os dados da ciência.

É verdade que, segundo o dogma, essa ressurreição deve acontecer apenas no fim dos tempos, enquanto, de acordo com a Doutrina Espírita, acontece todos os dias. Porém, ainda não existe nesse quadro do julgamento final uma bela e grande figura que esconde, sob o véu da alegoria, uma dessas verdades imutáveis que não encontrará mais incrédulos, desde que lhes seja restituída a verdadeira significação? Que as pessoas sejam dignas de meditar a teoria espírita sobre o futuro das almas e sua destinação, em relação às diferentes provas que lhes cabe suportar, e se verá que, com exceção da simultaneidade, o julgamento em que serão condenadas ou absolvidas não é uma ficção, assim como pensam os incrédulos. Destaquemos ainda que aquela teoria é a conseqüência natural da pluralidade dos mundos, hoje perfeitamente admitida, enquanto, conforme a doutrina do juízo final, a Terra passa a ser o único mundo habitado.
Paraíso, inferno e purgatório

1012 Haverá lugares determinados no universo destinados às penalidades e aos prazeres dos Espíritos, conforme seus méritos?

– Já respondemos a essa questão. As penalidades e os prazeres são inerentes ao grau de perfeição dos Espíritos; cada um tira de si mesmo o princípio de sua própria felicidade ou infelicidade; e como estão por toda parte, nenhum lugar localizado nem fechado está destinado a um ou a outro. Quanto aos Espíritos encarnados, eles são mais ou menos felizes ou infelizes conforme o mundo que habitem seja mais ou menos avançado.

1012 a Em vista disso, o inferno e o paraíso não existiriam como o homem os representa?

– São apenas figuras: existem Espíritos felizes e infelizes por toda parte. Entretanto, como também dissemos, os Espíritos da mesma ordem se reúnem por simpatia; mas podem se reunir onde quiserem quando são perfeitos.

A localização exata dos lugares de penalidades e recompensas existe apenas na imaginação do homem e provém da tendência de materializar e circunscreveras coisas das quais eles não podem compreender a essência infinita.

1013 O que se deve entender por purgatório?

– Dores físicas e morais: é o tempo de expiação. É quase sempre na Terra que fazeis vosso purgatório e onde sois obrigados a expiar vossas faltas.

☼ O que o homem chama de purgatório é igualmente uma figura pela qual se deve entender não como um lugar qualquer determinado, mas como o estado dos Espíritos imperfeitos, que estão em expiação até a purificação completa que deve elevá-los ao plano dos Espíritos bem aventurados. Essa purificação, operando-se nas diversas encarnações, faz com que o purgatório consista nas provas da vida corporal.

1014 Como se explica que Espíritos, que pela sua linguagem revelam superioridade, tenham respondido a pessoas muito sérias a respeito do inferno e do purgatório, de acordo com a idéia corrente que se faz desses lugares?

– Eles falam uma linguagem que possa ser compreendida pelas pessoas que os interrogam, e quando essas pessoas se mostram convictas de certas idéias evitam chocá-las bruscamente para não ferir suas convicções. Se um Espírito quisesse dizer, sem precauções oratórias, a um muçulmano que Maomé não foi profeta, seria muito mal compreendido.

1014 a Concebe-se que assim possa ser com a maioria dos Espíritos que desejam nos instruir; mas como se explica que Espíritos interrogados sobre sua situação tenham respondido que sofriam torturas do inferno ou do purgatório?

– Quando são inferiores e ainda não completamente desmaterializados, conservam parte de suas idéias terrenas e transmitem suas impressões se servindo de termos que lhes são familiares. Eles se encontram num meio que lhes permite sondar o futuro apenas imperfeitamente, e é por isso que freqüentemente Espíritos errantes, ou recém-desencarnados, falarão como se estivessem encarnados. Inferno pode se traduzir por uma vida de provações extremamente dolorosa, com a incerteza de haver outra melhor. Purgatório, por uma vida também de provações, mas com consciência de um futuro melhor. Quando passais por uma grande dor, não dizeis que sofreis como um condenado? São apenas palavras, e sempre no sentido figurado.

1015 O que se deve entender por uma alma penada?

– Um Espírito errante e sofredor, incerto de seu futuro, e a quem podeis proporcionar o alívio que, muitas vezes, solicita ao se comunicar convosco. (Veja a questão 664.)

1016 Em que sentido se deve entender a palavra céu?

– Acreditais que seja um lugar, como os Campos Elíseos7 dos antigos, onde todos os bons Espíritos estão indistintamente aglomerados com a única preocupação de desfrutar, durante a eternidade, de uma felicidade passiva? Não. É o espaço universal; são os planetas, as estrelas e todos os mundos superiores onde os Espíritos desfrutam de todas as suas qualidades sem os tormentos da vida material nem as angústias próprias à inferioridade.

1017 Alguns Espíritos disseram estar habitando o quarto, o quinto céu, etc.; o que quiseram dizer com isso?

– Se lhes perguntais qual céu habitam é porque tendes uma idéia de muitos céus sobrepostos, como os andares de uma casa. Então, eles respondem conforme vossa linguagem. Mas, para eles, essas palavras, quarto e quinto céu, exprimem diferentes graus de depuração e, conseqüentemente, de felicidade. É exatamente como quando se pergunta a um Espírito se ele está no inferno; se é infeliz, dirá que sim, porque para ele inferno é sinônimo de sofrimento; porém, ele sabe muito bem que não é uma fornalha. Se fosse um pagão diria que estava no Tártaro.

☼ O mesmo acontece com muitas outras expressões semelhantes, como: cidade das flores, cidade dos eleitos, primeira, segunda ou terceira esfera, etc., que não passam de expressões usadas por certos Espíritos, quer como figuras, quer algumas vezes por ignorância da realidade das coisas e até mesmo das mais simples noções científicas.

De acordo com a idéia restrita que se fazia antigamente dos lugares de sofrimentos e recompensas, e principalmente com a opinião de que a Terra era o centro do universo, de que o céu formava uma abóbada e que havia uma região de estrelas, colocava-se o céu em cima e o inferno embaixo. Daí as expressões: subir ao céu, estar no mais alto dos céus, estar precipitado no inferno. Hoje a ciência demonstra que a Terra não passa de um dos menores planetas, sem importância especial. Entre milhões de outros, traçou a história de sua formação e descreveu sua constituição; provou que o espaço é infinito, que não há nem alto nem baixo no universo, e assim impôs a rejeição à idéia de situar o céu acima das nuvens e o inferno nos lugares baixos. Quanto ao purgatório, nenhum lugar lhe fora designado. Estava reservado ao Espiritismo dar sobre todas essas coisas a explicação mais racional, grandiosa e, ao mesmo tempo, mais consoladora para a humanidade. Assim, pode-se dizer que levamos em nós mesmos nosso inferno e nosso paraíso e, quanto ao purgatório, nós o encontramos em nossa encarnação, em nossas vidas físicas.

1018 Em que sentido é preciso entender estas palavras do Cristo: “Meu reino não é deste mundo?”

– O Cristo, ao responder assim, falava num sentido figurado. Ele queria dizer que apenas reina nos corações puros e desinteressados. Ele está por todos os lugares onde domina o amor ao bem, mas os homens ávidos das coisas deste mundo e ligados aos bens da Terra não estão com ele.

1019 O reino do bem poderá um dia realizar-se na Terra?

– O bem reinará na Terra quando, entre os Espíritos que vêm habitá-la, os bons predominarem sobre os maus; então eles farão reinar na Terra o amor e a justiça, que são a fonte do bem e da felicidade. Pelo progresso moral e praticando as leis de Deus é que o homem atrairá para a Terra os bons Espíritos e afastará os maus; mas os maus só a deixarão quando o homem tiver expulsado de si o orgulho e o egoísmo.

A transformação da humanidade foi anunciada e é chegado o tempo em que todos os homens amantes do progresso se apresentam e se apressam, porque essa transformação se fará pela encarnação dos Espíritos melhores, que formarão sobre a Terra uma nova ordem. Então, os Espíritos maus, que a morte vai retirando a cada dia, e aqueles que tentam deter a marcha das coisas serão excluídos da Terra porque estariam deslocados entre os homens de bem dos quais perturbariam a felicidade.

Eles irão para mundos novos, menos avançados, desempenhar missões punitivas para seu próprio adiantamento e de seus irmãos ainda mais atrasados. Nessa exclusão de Espíritos da Terra transformada não percebeis a sublime figura do paraíso perdido? E a chegada à Terra do homem em semelhantes condições, trazendo em si o gérmen de suas paixões e os traços de sua inferioridade primitiva, a figura não menos sublime do pecado original? O pecado original, sob esse ponto de vista, se refere à natureza ainda imperfeita do homem, que é, assim, responsável por si mesmo e por suas próprias faltas e não pelas faltas de seus pais. Todos vós, homens de fé e boa vontade, trabalhai com zelo e coragem na grande obra da regeneração, porque recolhereis cem vezes mais o grão que tiverdes semeado. Infelizes aqueles que fecham os olhos à luz. Preparam para si longos séculos de trevas e decepções; infelizes os que colocam todas as suas alegrias nos bens deste mundo, porque sofrerão mais privações do que os prazeres de que desfrutaram; infelizes, principalmente, os egoístas, porque não encontrarão ninguém para ajudá-los a carregar o fardo de suas misérias.

O livro dos Espíritos

O Livro dos Espíritos
Parte Segunda – Capítulo 9
Intervenção dos espíritos no mundo corporal

Como os Espíritos podem penetrar nossos pensamentos – Influência oculta dos Espíritos sobre nossos pensamentos e nossas ações – Possessos – Convulsivos – Afeição dos Espíritos por certas pessoas – Anjos de guarda; Espíritos protetores, familiares ou simpáticos – Pressentimentos – Influência dos Espíritos sobre os acontecimentos da vida – Ação dos Espíritos sobre os fenômenos da natureza – Os Espíritos durante os combates – Pactos – Poder oculto. Talismãs. Feiticeiros – Bênção e maldição
Como os Espíritos podem penetrar nossos pensamentos

456 Os Espíritos vêem tudo o que fazemos?

– Eles podem ver, porque vos rodeiam incessantemente. Cada um vê apenas as coisas sobre as quais dirige sua atenção. Não se preocupam com o que lhes é indiferente.

457 Os Espíritos podem conhecer nossos mais secretos pensamentos?

– Freqüentemente conhecem o que gostaríeis de esconder de vós mesmos. Nem atos, nem pensamentos lhes podem ser ocultados.

457 a Assim, é mais fácil esconder uma coisa de uma pessoa viva do que fazer isso a essa mesma pessoa após a morte?

– Certamente, e, quando acreditais estarem bem escondidos, tendes muitas vezes uma multidão de Espíritos ao vosso lado que vos observam.

458 O que pensam de nós os Espíritos que estão ao nosso redor e nos observam?

– Isso depende. Os Espíritos levianos riem dos pequenos aborrecimentos que vos causam e zombam de vossas impaciências. Os Espíritos sérios lamentam vossos defeitos e se empenham em vos ajudar.
Influência oculta dos Espíritos sobre nossos pensamentos e nossas ações

459 Os Espíritos influem sobre nossos pensamentos e ações?

– A esse respeito, sua influência é maior do que podeis imaginar. Muitas vezes são eles que vos dirigem.

460 Temos pensamentos próprios e outros que são sugeridos?

– Vossa alma é um Espírito que pensa; não ignorais que muitos pensamentos vos ocorrem às vezes ao mesmo tempo sobre um mesmo assunto e freqüentemente bastante contrários uns aos outros; pois bem, nesses pensamentos há sempre os vossos e os nossos. Isso vos coloca na incerteza, porque, então, tendes duas idéias que se combatem.

461 Como distinguir os pensamentos próprios daqueles que são sugeridos?

– Quando um pensamento é sugerido, é como uma voz falando. Os pensamentos próprios são em geral os do primeiro momento. Além de tudo, não há para vós um grande interesse nessa distinção e muitas vezes é útil não sabê-lo: o homem age mais livremente. Se decidir pelo bem, o faz voluntariamente; se tomar o mau caminho, há nisso apenas maior responsabilidade.

462 Os homens de inteligência e de gênio tiram suas idéias de sua natureza íntima?

– Algumas vezes as idéias vêm de seu próprio Espírito, mas freqüentemente são sugeridas por outros Espíritos que os julgam capazes de compreendê-las e dignos de transmiti-las. Quando não as encontram em si, apelam à inspiração. Fazem, assim, uma evocação sem o suspeitar.

☼ Se nos fosse útil distinguir claramente nossos próprios pensamentos dos que nos são sugeridos, Deus nos teria dado o meio de o fazer, como nos deu o de distinguir o dia da noite. Quando uma coisa é vaga, é porque convém que assim seja.

463 Diz-se, a respeito do pensamento, que o primeiro impulso é sempre bom; isso é exato?

– Pode ser bom ou mau, de acordo com a natureza do Espírito encarnado que o recebe. É sempre bom para aquele que ouve as boas inspirações.

464 Como distinguir se um pensamento sugerido vem de um bom ou de um mau Espírito?

– Estudai o caso. Os bons Espíritos apenas aconselham o bem; cabe a vós fazer a distinção.

465 Com que objetivo os Espíritos imperfeitos nos conduzem ao mal?

– Para vos fazer sofrer como eles.

465 a Isso diminui seus sofrimentos?

– Não, mas fazem isso por inveja, por saber que há seres mais felizes.

465 b Que natureza de sofrimentos querem impor aos outros?

– Os mesmos que sentem os Espíritos inferiores afastados de Deus.

466 Por que Deus permite que Espíritos nos excitem ao mal?

– Os Espíritos imperfeitos são instrumentos que servem para pôr à prova a fé e a constância dos homens na prática do bem. Vós, como Espíritos, deveis progredir na ciência do infinito, e por isso passais pelas provas do mal para atingir o bem. Nossa missão é vos colocar no bom caminho e, quando as más influências agem sobre vós, é que as atraístes pelo desejo do mal, porque os Espíritos inferiores vêm vos auxiliar no mal, quando tendes a vontade de praticá-lo; eles não podem vos ajudar no mal senão quando quereis o mal.

Se sois inclinados ao homicídio, pois bem! Tereis uma multidão de Espíritos que alimentarão esse pensamento em vós. Mas tereis também outros Espíritos que se empenharão para vos influenciar ao bem, o que faz restabelecer o equilíbrio e vos deixa o comando dos vossos atos.

☼ É assim que Deus deixa à nossa consciência a escolha do caminho que devemos seguir e a liberdade de ceder a uma ou outra das influências contrárias que se exercem sobre nós.

467 Pode o homem se libertar da influência dos Espíritos que procuram arrastá-lo ao mal?

– Sim, porque apenas se ligam àqueles que os solicitam por seus desejos ou os atraem pelos seus pensamentos.

468 Os Espíritos cuja influência é repelida pela vontade do homem renunciam às suas tentativas?

– O que quereis que façam? Quando não há nada a fazer, desistem da tentativa; entretanto, aguardam o momento favorável, como o gato espreita o rato.

469 Como se pode neutralizar a influência dos maus Espíritos?

– Fazendo o bem e colocando toda a confiança em Deus, repelis a influência dos Espíritos inferiores e anulais o domínio que querem ter sobre vós. Evitai escutar as sugestões dos Espíritos que vos inspiram maus pensamentos, sopram a discórdia e excitam todas as más paixões. Desconfiai, especialmente, daqueles que exaltam o vosso orgulho, porque vos conquistam pela fraqueza. Eis por que Jesus nos ensinou a dizer na oração dominical: “Senhor, não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal!”

470 Os Espíritos que procuram nos induzir ao mal e colocam assim à prova nossa firmeza no bem receberam a missão de fazê-lo? E se é uma missão, têm responsabilidade por isso?

– Nenhum Espírito recebe a missão de fazer o mal. Quando o faz, é de sua própria vontade e sofre as conseqüências. Deus pode deixá-lo fazer isso para vos pôr à prova, mas não ordena que o faça, e cabe a vós rejeitá-lo.

471 Quando experimentamos um sentimento de angústia, de ansiedade indefinível ou de satisfação interior sem causa conhecida, isso decorre unicamente de uma disposição física?

– São quase sempre, de fato, comunicações que tendes inconscientemente com os Espíritos, ou que tivestes com eles durante o sono.

472 Os Espíritos que querem nos induzir ao mal apenas se aproveitam das circunstâncias ou podem também criá-las?

– Aproveitam as circunstâncias, mas freqüentemente as provocam, oferecendo-vos ou levando-vos inconscientemente ao objeto de vossa cobiça. Assim, por exemplo, um homem encontra no caminho uma quantia de dinheiro; não acrediteis que os Espíritos levaram o dinheiro para esse lugar, mas podem dar ao homem o pensamento de se dirigir a esse ponto e, então, sugerir o pensamento de se apoderar dele, enquanto outros lhe sugerem o de restituir o dinheiro a quem pertence. O mesmo acontece com todas as outras tentações.
Possessos

473 Um Espírito pode momentaneamente entrar no corpo de uma pessoa viva, isto é, se introduzir num corpo animado e agir no lugar daquele que está encarnado?

– O Espírito não entra num corpo como entrais numa casa. Ele se identifica com um Espírito encarnado que tem os mesmos defeitos e as mesmas qualidades para agir conjuntamente; mas é sempre o Espírito encarnado que age como quer, sobre a matéria em que está. Um Espírito não pode substituir o que está encarnado, porque o Espírito e o corpo estão ligados até o tempo marcado para o fim da existência material.

474 Se não há possessão propriamente dita, ou seja, coabitação de dois Espíritos num mesmo corpo, a alma pode se encontrar na dependência de outro Espírito, de maneira a estar por ele subjugada ou obsediada, a ponto de sua vontade ficar, de algum modo, paralisada?

– Sim, e esses são os verdadeiros possessos. Mas é preciso entender que essa dominação nunca ocorre sem a participação daquele que a sofre, seja por sua fraqueza, seja por seu desejo. Têm-se tomado freqüentemente por possessos os epilépticos ou os loucos, que têm mais necessidade de médico do que de exorcismo.

☼ A palavra possesso, na sua significação comum, supõe a existência de demônios, ou seja, de uma categoria de seres de natureza má, e a coabitação de um desses seres com a alma no corpo de um indivíduo. Uma vez que não existem demônios nesse sentido e que dois Espíritos não podem habitar simultaneamente o mesmo corpo, não existem possessos de acordo com a significação dada a essa palavra. A palavra possesso deve ser entendida como sendo a dependência absoluta em que a alma pode se encontrar em relação a Espíritos imperfeitos exercendo sobre ela o seu domínio.

475 Pode-se por si mesmo afastar os maus Espíritos e se libertar de sua dominação?

– Sempre se pode libertar de um domínio quando se tem vontade firme.

476 Poderá acontecer que a fascinação exercida pelo mau Espírito seja tal que a pessoa subjugada não se aperceba disso? Então, uma terceira pessoa pode fazer cessar essa influência e, nesse caso, que condições ela deve ter?

– Se é um homem de bem, sua vontade pode ajudar ao pedir a cooperação dos bons Espíritos, porque quanto mais se é um homem de bem, mais se tem poder sobre os Espíritos imperfeitos para afastá-los e sobre os bons Espíritos para atraí-los. Entretanto, resultará inútil qualquer tentativa se aquele que está subjugado não consentir nisso. Há pessoas que gostam de sentir uma dependência que satisfaça seus gostos e seus desejos. Em qualquer caso, aquele cujo coração não é puro não pode fazer nada; os bons Espíritos o desprezam e os maus não o temem.

477 As fórmulas de exorcismo têm alguma eficácia sobre os maus Espíritos?

– Não; quando esses Espíritos vêem alguém levá-las a sério, riem e se tornam birrentos, teimosos.

478 Existem pessoas que, embora tenham boas intenções, não são menos obsediadas; qual o melhor meio de se livrar dos Espíritos obsessores?

– Cansar sua paciência, não ligar para suas sugestões, mostrar-lhes que perdem seu tempo; então, quando vêem que nada mais têm a fazer, se afastam.

479 A prece é um meio eficaz para curar a obsessão?

– A prece é em tudo um poderoso auxílio. Mas, acreditai, não basta murmurar algumas palavras para obter o que se deseja. Deus assiste aqueles que agem e não aqueles que se limitam a pedir. É preciso que o obsediado faça, por seu lado, o necessário para destruir em si mesmo a causa que atrai os maus Espíritos.

480 O que pensar da expulsão dos demônios de que fala o Evangelho?

– Isso depende da interpretação. Se chamais de demônio um Espírito mau que subjuga um indivíduo, quando sua influência for destruída terá sido verdadeiramente expulso. Se atribuís a causa de uma doença ao demônio, quando curardes a doença também direis que expulsastes o demônio. Uma coisa pode ser verdadeira ou falsa de acordo com o sentido que se der às palavras. As maiores verdades podem parecer absurdas quando se olha apenas a forma e se toma a alegoria pela realidade. Compreendei bem isso e guardai-o: é de aplicação geral.
Convulsivos1

481 Os Espíritos exercem alguma atuação nos fenômenos que se produzem nos indivíduos chamados convulsivos?

– Sim, e muito grande, bem como o magnetismo, que é a causa desses fenômenos. Porém, o charlatanismo tem freqüentemente explorado e exagerado seus efeitos, o que os faz cair no ridículo.

481 a De que natureza são, em geral, os Espíritos que provocam esses fenômenos?

– Pouco elevada. Julgais que Espíritos superiores se ocupem com coisas dessa natureza?

482 Como o estado anormal dos convulsivos e dos que têm crises nervosas pode se estender subitamente a toda uma população?

– Por afinidade. As disposições morais se comunicam muito facilmente em certos casos; não estais tão alheios aos efeitos magnéticos para não compreenderdes isso e a parte que alguns Espíritos devem nele tomar, por simpatia, com aqueles que os provocam.

☼ Entre as faculdades especiais que se notam entre os convulsivos reconhecem-se sem dificuldade as que no sonambulismo e magnetismo oferecem numerosos exemplos: são, entre outras, a insensibilidade física, a leitura do pensamento, a transmissão, por simpatia ou afinidade, das dores, etc. Não se pode duvidar que os que sofrem de crises não estejam num estado de sonambulismo acordado, provocado pela influência que exercem uns sobre os outros. São ao mesmo tempo magnetizadores e magnetizados sem o saberem.

483 Qual a causa da insensibilidade física que se nota em certos convulsivos ou em certos indivíduos submetidos a torturas cruéis?

– Em alguns, é um efeito exclusivamente magnético que age sobre o sistema nervoso, semelhante à ação de certas substâncias. Em outros, a exaltação do pensamento enfraquece a sensibilidade, porque a vida parece retirar-se do corpo para se transportar ao Espírito. Não sabeis que, quando o Espírito está fortemente preocupado com uma coisa, o corpo não sente, não vê e não ouve nada?

☼ A exaltação fanática e o entusiasmo oferecem, freqüentemente, nos casos de suplícios, o exemplo de calma e sangue-frio que não triunfariam sobre uma dor aguda se não se admitisse que a sensibilidade se encontra neutralizada por uma espécie de efeito anestésico. Sabe-se que no calor do combate a pessoa não se apercebe, freqüentemente, de um ferimento grave, enquanto em circunstâncias comuns um simples arranhão a faz estremecer.

Visto que esses fenômenos dependem de uma causa física e da ação de certos Espíritos, podemos perguntar como, em muitos casos, atenderam a uma ordem e cessaram. A razão disso é simples. A ação dos Espíritos nesses casos é apenas secundária; somente se aproveitam de uma disposição natural. O fato de obedecer à autoridade de uma ordem dada não lhes suprimiu essa disposição, mas a causa que a mantinha e exaltava; de ativa, passou a latente, e teve razão para agir assim, porque o fato resultava em abuso e escândalo. Sabe-se, de resto, que essa intervenção não tem nenhum poder quando a ação dos Espíritos é direta e espontânea.
Afeição dos Espíritos por certas pessoas

484 Os Espíritos se afeiçoam de preferência a certas pessoas?

– Os bons Espíritos simpatizam com os homens de bem ou passíveis de se melhorarem. Os Espíritos inferiores, com os homens viciosos ou que possam vir a sê-lo; daí sua afeição por causa da semelhança dos sentimentos.

485 A afeição dos Espíritos por algumas pessoas é exclusivamente moral?

– A afeição verdadeira não tem nada de carnal; mas, quando um Espírito se liga a uma pessoa, nem sempre é só por afeição, pode haver lembranças das paixões humanas.

486 Os Espíritos se interessam por nossa infelicidade e nossa prosperidade? Aqueles que nos querem bem se afligem com os males que passamos na vida?

– Os bons Espíritos fazem o bem tanto quanto lhes é possível e ficam felizes com todas as vossas alegrias. Afligem-se com os vossos males quando não os suportais com resignação, porque nenhum resultado benéfico trazem para vós; sois, então, como o doente que rejeita o remédio amargo que deve curá-lo.

487 De que mal os Espíritos se afligem mais por nós: o físico ou o moral?

– Do vosso egoísmo e dureza de coração: daí deriva tudo. Eles se riem de todos esses males imaginários que nascem do orgulho e da ambição e se alegram com aqueles que servem para abreviar vosso tempo de prova.

☼ Os Espíritos, sabendo que a nossa vida corporal é apenas transitória e que angústias são meios de chegar a um estado melhor, se afligem mais pelas causas morais que nos distanciam deles do que pelas físicas, que são apenas passageiras.

Os Espíritos não se prendem muito às infelicidades que afetam apenas nossas idéias mundanas, assim como fazemos com os desgostos infantis das crianças.

Os Espíritos que vêem nas aflições da vida um meio de adiantamento para nós as consideram como a crise momentânea que deve salvar o doente. Compadecem-se com os nossos sofrimentos como nos compadecemos com os de um amigo. Mas, vendo as coisas como vêem, de um ponto de vista mais justo, as apreciam de outro modo, e enquanto os bons estimulam nossa coragem no interesse de nosso futuro, os maus nos incitam ao desespero com o propósito de nos comprometer.

488 Os parentes e amigos, que nos precederam na vida espiritual, têm por nós mais simpatia do que os Espíritos estranhos?

– Sem dúvida, e muitas vezes vos protegem como Espíritos, conforme tenham poder para tanto.

488 a São sensíveis à afeição que nós lhes devotamos?

– Muito sensíveis, mas esquecem aqueles que os esquecem.
Anjos de guarda; Espíritos protetores, familiares ou simpáticos

489 Há Espíritos que se ligam a um indivíduo em particular para protegê-lo?

– Sim, o irmão espiritual; é o que chamais de bom Espírito ou bom gênio.

490 O que se deve entender por anjo de guarda?

– O Espírito protetor de uma ordem elevada.

491 Qual é a missão do Espírito protetor?

– A de um pai para com seus filhos: conduzir seu protegido ao bom caminho, ajudá-lo com seus conselhos, consolá-lo em suas aflições, sustentar sua coragem nas provas da vida.

492 O Espírito protetor é ligado ao indivíduo desde seu nascimento?

– Desde o nascimento até a morte e, muitas vezes, o segue após a morte na vida espiritual, e mesmo em muitas existências corporais, porque essas existências são somente fases bem curtas em relação à vida do Espírito.

493 A missão do Espírito protetor é voluntária ou obrigatória?

– O Espírito é obrigado a velar por vós, se aceitou essa tarefa. Mas escolhe os seres que lhes são simpáticos. Para uns é um prazer; para outros, uma missão ou um dever.

493 a Ao se ligar a uma pessoa o Espírito renuncia a proteger outros indivíduos?

– Não, mas não faz só isso, exclusivamente.

494 O Espírito protetor está inevitavelmente ligado à criatura confiada à sua guarda?

– Pode ocorrer que alguns Espíritos tenham que deixar sua posição para realizar diversas missões, mas nesse caso são substituídos.

495 O Espírito protetor abandona algumas vezes seu protegido quando este é rebelde aos seus conselhos?

– Ele se afasta quando vê que seus conselhos são inúteis e a vontade de aceitar a influência dos Espíritos inferiores é mais forte no seu protegido. Mas não o abandona completamente e sempre se faz ouvir; é, porém, o homem quem fecha os ouvidos. O protetor volta logo que seja chamado.

É uma doutrina que deveria converter os mais incrédulos por seu encanto e por sua doçura: a dos anjos de guarda. Pensar que se tem sempre perto de si seres superiores, sempre prontos para aconselhar, sustentar, ajudar a escalar a áspera montanha do bem, que são amigos mais seguros e devotados que as mais íntimas ligações que se possa ter na Terra, não é uma idéia bem consoladora? Esses seres estão ao vosso lado por ordem de Deus,que por amor os colocou perto de vós, cumprindo uma bela, embora difícil, missão. Sim, em qualquer lugar onde estiverdes estarão convosco: nas prisões, nos hospitais, nos lugares de devassidão, na solidão, nada vos separa desses amigos que não podeis ver, mas de quem vossa alma sente os mais doces estímulos e ouve os sábios conselhos.

Deveríeis conhecer melhor essa verdade! Quantas vezes vos ajudaria nos momentos de crise; quantas vezes vos salvaria dos maus Espíritos! Mas no dia decisivo, esse anjo do bem terá que vos dizer: “Não te disse isso? E tu não o fizeste. Não te mostrei o abismo? E tu aí te precipitaste. Não te fiz ouvir na tua consciência a voz da verdade? E não seguiste os conselhos da mentira?” Ah! Interrogai os vossos anjos de guarda; estabelecei entre eles e vós essa ternura íntima que reina entre os melhores amigos. Não penseis em lhes esconder nada, porque eles são os olhos de Deus e não podeis enganá-los. Sonhai com o futuro. Procurai avançar nessa vida e vossas provas serão mais curtas;vossas existências, mais felizes. Vamos, homens de coragem! Atirai para longe de vós de uma vez por todas os preconceitos e idéias retrógradas. Entrai no novo caminho que se abre diante de vós. Marchai! Marchai! Tendes guias, segui-os: o objetivo não pode vos faltar, porque esse objetivo é o próprio Deus.

Aos que pensam que é impossível para os Espíritos verdadeiramente elevados se sujeitarem a uma tarefa tão árdua e de todos os instantes, diremos que influenciamos vossas almas estando a milhões e milhões de quilômetros. Para nós o espaço não é nada e, embora vivendo em outro mundo, nossos Espíritos conservam sua ligação com o vosso. Nós podemos usar de faculdades que não podeis compreender, mas ficais certos de que Deus não nos impôs uma tarefa acima de nossas forças e não vos abandonou sozinhos na Terra sem amigos e sem apoio. Cada anjo de guarda tem seu protegido por quem vela, como um pai vela pelo seu filho. Fica feliz quando o vê no bom caminho; fica triste quando seus conselhos são desprezados.

Não temais nos cansar com vossas questões. Ao contrário, procurai estar sempre em relação conosco: sereis mais fortes e felizes. São essas comunicações de cada homem com seu Espírito familiar que fazem de todos os homens médiuns, médiuns ignorados hoje, mas que se manifestarão mais tarde e que se espalharão como um oceano sem limites para repelir a incredulidade e a ignorância. Homens instruídos, instruí os vossos irmãos; homens de talento, elevai vossos irmãos. Não sabeis que obra cumprireis assim: é a do Cristo, a que Deus vos conferiu. Por que Deus vos deu a inteligência e a ciência, senão para as repartir com vossos irmãos, para fazê-los adiantarem-se no caminho da alegria e da felicidade eterna?

São Luís, Santo Agostinho

☼ A doutrina dos anjos de guarda, velando sobre seus protegidos apesar da distância que separa os mundos, não tem nada que deva surpreender; é, ao contrário, grande e sublime. Não vemos na Terra um pai velar pelo seu filho, embora esteja afastado dele, ajudá-lo com seus conselhos por correspondência? O que haveria, então, de espantoso em que os Espíritos pudessem guiar aqueles que tomam sob sua proteção, de um mundo a outro, uma vez que para eles a distância que separa os mundos é menor do que aquela que, na Terra, separa os continentes? Eles não dispõem, por outro lado, do fluido universal, que liga todos os mundos e os torna solidários, veículo magnífico da transmissão dos pensamentos, como o ar é, para nós, o veículo da transmissão do som?

496 O Espírito que abandona seu protegido, não lhe fazendo mais o bem, pode lhe fazer o mal?

– Os bons Espíritos nunca fazem o mal; deixam que o façam os que tomam o seu lugar. Acusais, então, a sorte pelas infelicidades que vos acontecem, quando a culpa é vossa.

497 O Espírito protetor pode deixar seu protegido sob a dependência de um Espírito que poderia lhe querer o mal?

– Os maus Espíritos se unem para neutralizar a ação dos bons. Se o protegido quiser, receberá toda a força de seu bom Espírito. O bom Espírito encontra, em algum lugar, uma boa vontade para ajudar; aproveita-se disso enquanto espera retornar para junto do seu protegido.

498 Quando o Espírito protetor deixa seu protegido se transviar no caminho, é por sua incapacidade na luta contra outros Espíritos maldosos?

– Não. Não é porque ele não possa impedir, mas porque não quer. Isso faz seu protegido sair das provas mais perfeito e instruído; ele o assiste com seus conselhos, pelos bons pensamentos que lhe sugere, mas, infelizmente, nem sempre são escutados. Somente a fraqueza, a negligência ou orgulho do homem é que dão força aos maus Espíritos; o poder que têm sobre vós resulta de não lhes fazer resistência.

499 O Espírito protetor está constantemente com seu protegido? Não há nenhuma circunstância em que, sem abandoná-lo, o perca de vista?

– Há circunstâncias em que a presença do Espírito protetor não é necessária junto de seu protegido.

500 Chega um momento em que o Espírito não tem mais necessidade de um anjo de guarda?

– Sim, quando atingiu um grau de poder conduzir-se a si mesmo, como chega o momento para o estudante em que não tem mais necessidade do mestre; mas isso não sucederá para vós aqui na Terra.

501 Por que a ação dos Espíritos sobre nossa existência é oculta e por que, quando nos protegem, não o fazem de um maneira ostensiva?

– Se contásseis com o seu apoio, não agiríeis por vós mesmos, e vosso Espírito não progrediria. Para progredir, vos é preciso experiência e, muitas vezes, é preciso adquiri-la à própria custa. É preciso que exerça suas forças; sem isso seria como uma criança a quem não se deixa caminhar sozinha. A ação dos Espíritos que vos querem bem é sempre regida de maneira a não impedir o vosso livre-arbítrio, visto que, se não tiverdes responsabilidade, não avançareis no caminho que deve conduzir a Deus. O homem, não vendo quem o ampara, confia em suas próprias forças; seu guia, entretanto, vela sobre ele e, de tempos em tempos, o adverte do perigo.

502 O Espírito protetor que consegue conduzir seu protegido no bom caminho tem alguma recompensa?

– É um mérito que lhe é levado em conta para seu próprio adiantamento ou para sua felicidade. É feliz quando vê seus esforços coroados de sucesso; triunfa como um mestre triunfa com o sucesso de seu discípulo.

502 a Ele é responsável se não tiver êxito?

– Não, uma vez que fez o que dependia dele.

503 O Espírito protetor sofre quando vê seu protegido seguir o mau caminho, apesar de seus conselhos? Isso não é para ele uma causa de perturbação para sua felicidade?

– Ele sofre com esses erros e o lastima; mas essa aflição não tem as angústias da paternidade terrestre, porque sabe que há remédio para o mal, e o que não é feito hoje se fará amanhã.

504 Podemos sempre saber o nome do nosso Espírito protetor ou anjo de guarda?

– Como quereis saber nomes que não existem para vós? Acreditais que haverá entre os Espíritos somente aqueles que conhecestes?

504 a Como, então, invocá-lo se não o conhecemos?

– Dai-lhe o nome que quiserdes, de um Espírito Superior pelo qual tendes simpatia ou veneração; vosso Espírito protetor atenderá ao chamado; todos os bons Espíritos são irmãos e se assistem entre si.

505 Os Espíritos protetores que tomam nomes conhecidos são sempre, realmente, os das pessoas que usaram esses nomes?

– Não, mas dos Espíritos que lhes são simpáticos e que muitas vezes vêm a seu chamado. Fazeis questão de nomes, então, tomam um que inspire confiança. Quando não podeis realizar uma missão pessoalmente, costumais mandar alguém de confiança em vosso nome.

506 Quando estivermos na vida espírita reconheceremos nosso Espírito protetor?

– Sim. Muitas vezes já o conhecíeis antes da vossa encarnação.

507 Os Espíritos protetores pertencem todos à classe dos Espíritos Superiores? Pode-se encontrar entre os de classe intermediária? Um pai, por exemplo, pode tornar-se protetor de seu filho?

– Pode. Mas a proteção supõe um certo grau de elevação e um poder ou uma virtude concedidos por Deus. O pai que protege seu filho pode, por sua vez, ser assistido por um Espírito mais elevado.

508 Os Espíritos que deixaram a Terra em boas condições podem sempre proteger os que amam e que lhes sobrevivem?

– Seu poder é mais ou menos restrito; a posição em que se encontram não lhes dá toda a liberdade de ação.

509 Os homens no estado selvagem ou de inferioridade moral têm igualmente seus Espíritos protetores? E, nesse caso, esses Espíritos são de ordem tão elevada quanto a dos protetores dos homens mais avançados?

– Cada homem tem um Espírito que vela por ele, mas as missões são relativas ao seu objetivo. Não dareis a uma criança que começa a aprender a ler um professor de filosofia. O progresso do Espírito familiar segue de perto o do Espírito protegido. Tendo vós mesmos um Espírito Superior que vela por vós, podeis, também, tornar-vos protetor de um Espírito inferior, e os progressos que o ajudardes a fazer contribuirão para o vosso adiantamento. Deus não pede ao Espírito mais do que sua natureza comporta e o grau de elevação a que alcançou.

510 Quando o pai que vela por um filho reencarna, continua a velar por ele?

– É mais difícil que isso aconteça. Mas, de certa maneira, continua, ao pedir, num momento de desprendimento, a um Espírito simpático que o assista nessa missão. Aliás, os Espíritos apenas aceitam missões que podem cumprir até o fim.

O Espírito encarnado, principalmente nos mundos em que a existência é material, está muito submetido ao seu corpo para poder ser inteiramente devotado a um outro Espírito e poder assisti-lo pessoalmente. Eis por que aqueles que não são suficientemente elevados são assistidos por Espíritos Superiores, de tal modo que, se um falta por uma causa qualquer, é substituído por outro.

511 Além do Espírito protetor, haverá também um mau Espírito ligado a cada indivíduo com o fim de o expor ao mal e lhe fornecer ocasião de lutar entre o bem e o mal?

– Ligado não é bem a palavra. É bem verdade que os maus Espíritos procuram desviá-lo do bom caminho quando encontram ocasião; mas quando um deles se liga a um indivíduo, o faz por si mesmo, porque espera ser escutado. Desse modo, há a luta entre o bom e o mau e vence aquele por quem o homem se deixa influenciar.

512 Podemos ter muitos Espíritos protetores?

– Cada homem sempre tem Espíritos simpáticos, mais ou menos elevados, que lhe dedicam afeição e se interessam por ele, como igualmente tem os que o assistem no mal.

513 Os Espíritos que nos são simpáticos agem em cumprimento de uma missão?

– Algumas vezes, podem ter uma missão temporária, mas quase sempre são atraídos pela semelhança de pensamentos e de sentimentos, tanto para o bem quanto para o mal.

513 a Parece resultar disso que os Espíritos simpáticos podem ser bons ou maus?

– Sim, o homem encontra sempre Espíritos que simpatizam com ele, qualquer que seja o seu caráter.

514 Os Espíritos familiares são os mesmos Espíritos simpáticos ou protetores?

– Há muitas gradações na proteção e na simpatia; dai-lhes os nomes que quiserdes. O Espírito familiar é antes o amigo da casa.

☼ Das explicações acima e das observações feitas sobre a natureza dos Espíritos que se ligam ao homem pode-se deduzir o seguinte:

O Espírito protetor, anjo de guarda ou bom gênio tem por missão seguir o homem na vida e ajudá-lo a progredir. É sempre de natureza superior à do protegido.

Os Espíritos familiares se ligam a certas pessoas por laços mais ou menos duráveis, para ajudá-las conforme seu poder, muitas vezes limitado. São bons, mas, às vezes, pouco avançados e mesmo um pouco levianos; ocupam-se voluntariamente dos detalhes da vida íntima e somente agem por ordem ou com permissão dos Espíritos protetores.

Os Espíritos simpáticos se ligam a nós por afeições particulares e certa semelhança de gostos e de sentimentos tanto para o bem quanto para o mal. A duração de suas relações é quase sempre subordinada às circunstâncias.

O mau gênio é um Espírito imperfeito ou perverso que se liga ao homem para desviá-lo do bem, mas age por sua própria iniciativa e não no cumprimento de uma missão. A constância da sua ação está em razão do acesso mais ou menos fácil que encontra. O homem tem a liberdade para escutar-lhe a voz ou rejeitá-la.

515 O que pensar dessas pessoas que parecem se ligar a certos indivíduos para os levar fatalmente à perdição ou para guiá-los no bom caminho?

– Algumas pessoas exercem, de fato, sobre outras uma espécie de fascinação que parece irresistível. Quando isso acontece para o mal, são maus Espíritos que se servem de outros igualmente maus para melhor poderem subjugar. A Providência permite que isso ocorra para vos por à prova.

516 Nosso bom e mau gênio poderiam encarnar para nos acompanhar na vida de uma maneira mais direta?

– Isso pode acontecer. Porém, freqüentemente encarregam dessa missão outros Espíritos encarnados que lhes são simpáticos.

517 Há Espíritos que se ligam a toda uma família para protegê-la?

– Alguns Espíritos se ligam aos membros de uma família em conjunto e que são unidos pela afeição, mas não acrediteis em Espíritos protetores do orgulho das raças.

518 Os Espíritos que são atraídos para os indivíduos pela sua simpatia também o são para as reuniões de indivíduos em razão de causas particulares?

– Os Espíritos vão de preferência onde estão seus semelhantes; lá estão mais à vontade e mais certos de serem escutados. O homem atrai os Espíritos em razão de suas tendências, quer esteja só ou formando uma coletividade, como uma sociedade, uma cidade ou um povo. Há, portanto, sociedades, cidades e povos que são assistidos por Espíritos mais ou menos elevados, segundo o caráter e as paixões que os dominam. Os Espíritos imperfeitos se afastam daqueles que os repelem; resulta disso que o aperfeiçoamento moral de todas as coletividades, como o dos indivíduos, tende a afastar os maus Espíritos e atrair os bons, que estimulam e mantêm o sentimento do bem nas massas, como outros podem estimular as paixões grosseiras.

519 As aglomerações de indivíduos, como as sociedades, as cidades, as nações, têm seus Espíritos protetores especiais?

– Sim, porque são de individualidades coletivas que marcham com um objetivo comum e têm necessidade de uma direção superior.

520 Os Espíritos protetores das massas são de natureza mais elevada do que os que se ligam aos indivíduos?

– Tudo é relativo ao grau de adiantamento tanto das massas como dos indivíduos.

521 Certos Espíritos podem ajudar no progresso das artes ao proteger aqueles que se ocupam delas?

– Há Espíritos protetores especiais que assistem aos que os invocam quando os julgam dignos. Porém, não deveis acreditar que consigam fazer com que os indivíduos sejam aquilo que não são. Eles não fazem os cegos enxergarem, nem os surdos ouvirem.

☼ Os antigos fizeram desses Espíritos divindades especiais. As Musas eram a personificação alegórica dos Espíritos protetores das ciências e das artes, como designavam sob o nome de Lares e Penates2 os Espíritos protetores da família. Modernamente, também, as artes, as diferentes indústrias, as cidades, os continentes têm seus patronos protetores, Espíritos Superiores, mas sob outros nomes.

Cada homem tem Espíritos que lhe são simpáticos, e resulta disso que, em todas as coletividades, a generalidade dos Espíritos simpáticos está em relação com a generalidade dos indivíduos; que os Espíritos de costumes e procedimentos estranhos são atraídos para essas coletividades pela identidade dos gostos e dos pensamentos; em uma palavra, que essas multidões de pessoas, assim como os indivíduos, são mais ou menos bem assistidos e influenciados conforme a natureza dos pensamentos dos que os compõem.

Entre os povos, as causas de atração dos Espíritos são os costumes, os hábitos, o caráter dominante e principalmente as leis, porque o caráter de uma nação se reflete em suas leis. Os homens que fazem reinar a justiça entre si combatem a influência dos maus Espíritos. Em toda parte onde as leis consagram injustiças, contrárias à humanidade, os bons Espíritos estão em minoria e a massa dos maus se reúne e mantém a nação sob o domínio das suas idéias e paralisa as boas influências parciais que ficam perdidas na multidão, como uma espiga isolada no meio dos espinheiros. Ao estudar os costumes dos povos ou de qualquer reunião de homens, é fácil, portanto, fazer uma idéia da população oculta que se infiltra em seus pensamentos e em suas ações.
Pressentimentos

522 O pressentimento é sempre um aviso do Espírito protetor?

– É o conselho íntimo e oculto de um Espírito que vos quer bem. Está também na intuição da escolha que se fez; é a voz do instinto. O Espírito, antes de encarnar, tem conhecimento das principais fases de sua existência, do gênero de provas por que terá de passar; quando estas têm um caráter marcante, conserva uma espécie de impressão em seu íntimo e essa impressão é a voz do instinto, que se revela quando o momento se aproxima como um pressentimento.

523 Os pressentimentos e a voz do instinto têm sempre alguma coisa de vago. Que devemos fazer quando ficamos na incerteza?

– Quando vos achardes na incerteza, na dúvida, invocai vosso Espírito protetor ou orai ao senhor de todos, a Deus, que enviará um de seus mensageiros, um de nós.

524 Os conselhos de nossos Espíritos protetores têm por objetivo unicamente a nossa conduta moral ou também o modo de proceder nas coisas da vida particular?

– Objetivam a tudo. Eles procuram vos fazer viver o melhor possível; porém, muitas vezes, fechais os ouvidos aos seus bons conselhos e sois infelizes por vossas faltas.

☼ Os Espíritos protetores nos ajudam com seus conselhos pela voz da consciência que fazem falar em nós; mas como nem sempre damos a isso a importância necessária, eles nos dão outros de maneira mais direta, servindo-se das pessoas que nos rodeiam. Que cada um examine as diversas circunstâncias felizes ou infelizes de sua vida e verá que em muitas ocasiões recebeu conselhos que nem sempre aceitou e que teriam poupado muitos desgostos se os houvesse escutado.
Influência dos Espíritos sobre os acontecimentos da vida

525 Os Espíritos exercem alguma influência sobre os acontecimentos da vida?

– Certamente, uma vez que vos aconselham.

525 a Eles exercem essa influência de outro modo, além dos pensamentos que sugerem, ou seja, têm uma ação direta sobre a realização das coisas?

– Sim, mas nunca agem fora das leis da natureza.

☼ Imaginamos erroneamente que a ação dos Espíritos deve se manifestar somente por fenômenos extraordinários. Desejaríamos que nos viessem ajudar por milagres e nós os representamos sempre armados de uma varinha mágica. Mas não é assim; e porque sua intervenção nos é oculta, o que fazemos, embora com a sua cooperação, nos parece muito natural. Assim, por exemplo, provocarão a reunião de duas pessoas que parecerão se reencontrar por acaso; inspirarão a alguém o pensamento de passar por determinado lugar; chamarão sua atenção sobre um certo ponto, se isso deve causar o resultado que tenham em vista obter, de tal modo que o homem, acreditando seguir somente um impulso próprio, conserva sempre seu livre-arbítrio.

526 Os Espíritos, tendo ação sobre a matéria, podem provocar alguns efeitos para realizar um acontecimento? Por exemplo, um homem deve morrer: ele sobe uma escada de madeira, a escada se quebra e o homem morre; são os Espíritos que fazem quebrar a escada para realizar o destino desse homem?

– É certo que os Espíritos têm ação sobre a matéria, mas para a realização das leis da natureza e não para as anular ao fazer surgir num certo momento um acontecimento inesperado e contrário a essas leis. No exemplo apresentado, a escada se quebra porque estava gasta e fraca ou não era suficientemente forte para suportar o peso do homem. Se por expiação esse homem tivesse que morrer assim, os Espíritos lhe inspirariam o pensamento de subir nessa escada, que, por ser velha, se quebraria com seu peso, e sua morte teria lugar por efeito natural, sem que fosse necessário fazer um milagre, isto é, anulando uma lei natural de fazer quebrar uma escada boa e forte.

527 Tomemos um outro exemplo em que o estado natural da matéria não seja importante. Um homem deve morrer fulminado por um raio; ele se refugia sob uma árvore, o raio brilha, explode e o mata. Os Espíritos puderam provocar o raio e dirigi-lo até ele?

– É ainda a mesma coisa. O raio atingiu a árvore nesse momento porque estava nas leis da natureza que fosse assim; não foi dirigido para a árvore porque o homem estava debaixo dela. Ao homem, sim, foi inspirado o pensamento de se refugiar debaixo da árvore em que o raio deveria cair, porém a árvore seria atingida, estivesse o homem debaixo dela ou não.

528 Um homem mal-intencionado dispara uma arma contra outro, a bala passa de raspão e não o atinge. Um Espírito benevolente pode tê-la desviado?

– Se o indivíduo não deve ser atingido, o Espírito benevolente lhe inspirará o pensamento de se desviar ou poderá dificultar a pontaria do seu inimigo de modo a fazê-lo enxergar mal. Mas a bala, uma vez disparada, segue a linha que deve percorrer.

529 O que se deve pensar das balas encantadas de algumas lendas que atingem fatalmente um alvo?

– Pura imaginação; o homem adora o maravilhoso e não se contenta com a maravilha da natureza.

529 a Os Espíritos que dirigem os acontecimentos da vida podem ser contrariados por Espíritos que queiram o contrário?

– O que Deus quer deve acontecer; se há um atraso ou um impedimento, é por Sua vontade.

530 Os Espíritos levianos e zombeteiros podem criar pequenos embaraços que atrapalham nossos projetos e confundir nossas previsões? Em uma palavra, são autores das chamadas pequenas misérias da vida humana?

– Eles se satisfazem em causar aborrecimentos que são provas para exercitar vossa paciência, mas se cansam quando não conseguem nada. Entretanto, não seria justo nem exato acusá-los de todas as vossas decepções, de que sois os primeiros responsáveis pela vossa leviandade. Acreditai, portanto, que, se a vossa baixela de louça se quebra, é antes pela vossa falta de jeito do que por culpa dos Espíritos.

530 a Os Espíritos que provocam essas inquietações agem por conseqüência de uma animosidade pessoal ou atacam o primeiro que chega, sem motivo determinado, unicamente por malícia?

– Ambos os casos. Algumas vezes, são inimigos que fazeis durante essa vida ou em uma outra, e que vos perseguem; outras vezes, não há motivos.

531 A maldade dos que nos fizeram mal na Terra se extingue com a morte?

– Muitas vezes sim, porque reconhecem sua injustiça e o mal que fizeram. Mas freqüentemente continuam a vos perseguir com persistência, se estiver nos desígnios da Providência, para continuar a vos provar.

531 a Pode-se pôr um fim a isso? Como?

– Sim, se orar por eles e retribuir o mal com o bem, acabarão por compreender seus erros. Além disso, se vos colocardes acima de suas maquinações, eles cessarão, vendo que nada ganham com isso.

☼ A experiência demonstra que alguns Espíritos prosseguem sua vingança de uma existência a outra, e que assim expiam, cedo ou tarde, os males que se pode ter feito a alguém.

532 Os Espíritos têm o poder de afastar os males sobre algumas pessoas e de atrair para elas a prosperidade?

– Não completamente. Há males que estão nos desígnios da Providência, mas amenizam vossas dores ao vos dar a paciência e a resignação.

Deveis prestar atenção porque depende muitas vezes de vós afastar esses males ou pelo menos atenuá-los. Deus vos deu a inteligência para vos servirdes dela e é principalmente por meio dela que os Espíritos vêm vos ajudar ao sugerir pensamentos benéficos; mas apenas assistem àqueles que sabem ajudar-se a si mesmos. É o sentido destas palavras: “Procurai e encontrareis, batei e se vos abrirá”.

Sabei ainda: o que parece um mal nem sempre é. Freqüentemente, do mal que vos aflige sairá um bem muito maior. É o que não compreendereis, enquanto pensardes somente no momento presente ou em vós mesmos.

533 Os Espíritos podem fazer obter a riqueza, se para isso são solicitados?

– Algumas vezes como prova, mas, freqüentemente, recusam, como se recusa a uma criança a satisfação de um pedido absurdo.

533 a Quando atendem, são os bons ou os maus Espíritos que concedem esses favores?

– Ambos; isso depende da intenção. Na maioria das vezes são Espíritos que querem vos conduzir ao mal e que encontram um meio fácil de o conseguir nos prazeres que a riqueza proporciona.

534 Quando sentimos obstáculos fatais em oposição aos nossos projetos, seria pela influência de algum Espírito?

– Algumas vezes, são os Espíritos. Outras, na maioria delas, é que escolhestes mal a elaboração e execução do projeto. A posição e o caráter influem muito. Se insistis num caminho que não é o vosso, não é devido aos Espíritos: é que sois vosso próprio mau gênio.

535 Quando alguma coisa feliz nos acontece, é a nosso Espírito protetor que devemos agradecer?

– Agradecei a Deus, sem cuja permissão nada se faz; depois, aos bons Espíritos, que são seus agentes.

535 a O que acontece quando não agradecemos?

– O que acontece aos ingratos.

535 b Entretanto, há pessoas que não oram nem agradecem e para as quais tudo dá certo!

– Sim, mas é preciso ver o final. Pagarão bem caro essa felicidade passageira que não merecem, já que, quanto mais tiverem recebido, mais contas terão que prestar.
Ação dos Espíritos sobre os fenômenos da natureza

536 Os grandes fenômenos da Natureza, aqueles que são considerados como uma perturbação dos elementos, são de causas imprevistas ou, ao contrário, são providenciais?

– Tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus.

536 a Esses fenômenos sempre têm o homem como objetivo?

– Algumas vezes têm uma razão de ser direta para o homem. Entretanto, na maioria dos casos, têm por objetivo o restabelecimento do equilíbrio e da harmonia das forças físicas da natureza.

536 b Concebemos perfeitamente que a vontade de Deus seja a causa primária nisso como em todas as coisas, mas, como sabemos que os Espíritos têm uma ação sobre a matéria e que são os agentes da vontade de Deus, perguntamos: alguns dentre eles não exercem uma influência sobre os elementos para os agitar, acalmar ou dirigir?

– Mas é evidente que exercem e não pode ser de outro modo. Deus não exerce ação direta sobre a matéria; ele tem agentes devotados em todos os graus da escala dos mundos.

537 A mitologia dos antigos é inteiramente fundada sobre as idéias espíritas, com a diferença de que consideravam os Espíritos divindades. Representavam esses deuses ou Espíritos com atribuições especiais: assim, uns eram encarregados dos ventos, outros do raio, outros de presidir a vegetação, etc; essa crença é totalmente destituída de fundamento?

– Ela é tão pouco destituída de fundamento que ainda está muito aquém da verdade.

537 a Pela mesma razão, poderia haver Espíritos vivendo no interior da Terra e dirigindo os fenômenos geológicos?

– Evidentemente esses Espíritos não habitam exatamente o interior da Terra, mas presidem e dirigem os fenômenos de acordo com suas atribuições. Um dia, tereis a explicação de todos esses fenômenos e os compreendereis melhor.

538 Os Espíritos que dirigem os fenômenos da natureza formam uma categoria especial no mundo espírita? São seres à parte ou Espíritos que estiveram encarnados como nós?

– Que estiveram ou que estarão.

538 a Esses Espíritos pertencem às ordens superiores ou inferiores da hierarquia espírita?

– Isso é conforme seja mais ou menos material ou inteligente o papel que desempenham. Uns comandam, outros executam. Aqueles que executam as coisas materiais são sempre de uma ordem inferior, entre os Espíritos como entre os homens.

539 Na produção de alguns fenômenos, as tempestades por exemplo, é um Espírito que age, ou se reúnem em massa?

– Em massas inumeráveis.

540 Os Espíritos que exercem ação sobre os fenômenos da natureza agem com conhecimento de causa, pelo seu livre-arbítrio, ou por um impulso instintivo ou irrefletido?

– Uns sim, outros não. Façamos uma comparação: imaginai essas imensidades de animais que pouco a pouco fazem sair do mar as ilhas e os arquipélagos, acreditais que não há nisso um objetivo providencial e que essa transformação da superfície do globo não seja necessária para a harmonia geral? Esses são apenas animais da última ordem que realizam essas coisas para proverem suas necessidades e sem desconfiarem que são os instrumentos de Deus. Pois bem! Do mesmo modo, os Espíritos mais atrasados são úteis ao conjunto; enquanto ensaiam para a vida e antes de ter plena consciência de seus atos e seu livre-arbítrio, agem sobre alguns fenômenos dos quais são agentes inconscientes. Executam primeiro; mais tarde, quando sua inteligência estiver mais desenvolvida, comandarão e dirigirão as coisas do mundo material; mais tarde ainda, poderão dirigir as coisas do mundo moral. É assim que tudo serve, tudo se encaixa na natureza, desde o átomo primitivo até o arcanjo que começou pelo átomo; admirável lei de harmonia da qual vosso Espírito limitado ainda não pode entender o conjunto.
Os Espíritos durante os combates

541 Durante uma batalha há Espíritos que assistem e sustentam cada lado?

– Sim, e que estimulam a coragem de ambos os lados.

☼ Os antigos representavam os deuses tomando partido por este ou aquele povo. Esses deuses eram simplesmente Espíritos representados sob figuras alegóricas.

542 Numa guerra, a justiça está sempre de um lado; como é que os Espíritos tomam partido por aquele que errou?

– Sabeis bem que há Espíritos que procuram apenas discórdia e destruição; para eles, guerra é guerra: a justiça da causa pouco os preocupa.

543 Alguns Espíritos podem influenciar o general na concepção dos seus planos de campanha?

– Sem dúvida nenhuma. Os Espíritos podem influenciar nesse sentido, como em todas as concepções.

544 Os maus Espíritos poderiam inspirar a um general um plano errôneo para levá-lo à derrota?

– Sim; mas ele não tem seu livre-arbítrio? Se seu julgamento não permite distinguir uma idéia justa de uma falsa, sofrerá as conseqüências disso, e faria melhor obedecer do que comandar.

545 O general pode, algumas vezes, ser guiado por uma espécie de segunda vista, uma vista intuitiva que lhe mostra antecipadamente o resultado de sua estratégia?

– É muitas vezes assim que ocorre com o homem de gênio. É o que ele chama inspiração e faz com que aja com uma espécie de certeza. Essa inspiração vem dos Espíritos que o dirigem e se servem das faculdades de que é dotado.

546 No tumulto do combate, o que acontece com os Espíritos que morrem? Ainda se interessam pela luta após a morte?

– Alguns se interessam; outros se afastam.

☼ Nos combates, acontece o que ocorre em todos os casos de morte violenta; no primeiro momento o Espírito fica surpreso e atordoado e não acredita estar morto, ainda pensa tomar parte na ação; é somente pouco a pouco que a realidade aparece.

547 Após a morte, os Espíritos que se combatiam enquanto vivos se reconhecem por inimigos e ainda lutam uns contra os outros?

– O Espírito nessas horas nunca está calmo; no primeiro momento ainda pode odiar seu inimigo e até mesmo persegui-lo, mas quando as idéias lhe retornam vê que seu ódio não tem mais objetivo; entretanto, ainda pode conservar traços dessas idéias mais ou menos fortes, conforme seu caráter.

547 a Percebe ainda o rumor da batalha?

– Sim, perfeitamente.

548 O Espírito que assiste com sangue-frio a um combate, como espectador, testemunha a separação da alma e do corpo. Como esse fenômeno se apresenta a ele?

– Há poucas mortes instantâneas. Quase sempre, o Espírito cujo corpo vem a ser mortalmente ferido não tem consciência disso no momento. Quando começa a reconhecer sua condição é que pode distinguir o Espírito a mover-se ao lado do cadáver; isso parece tão natural que a visão do corpo morto não lhe causa nenhum efeito desagradável. Como a essência da vida está toda concentrada no Espírito, só ele atrai a atenção; é com ele que conversa, ou a ele que se dirige.
Pactos

549 Há alguma coisa de verdadeiro nos pactos com maus Espíritos?

– Não, não há pactos. O que há é uma má natureza que simpatiza com os maus Espíritos. Por exemplo: quereis atormentar vosso vizinho e não sabeis como fazê-lo; então, chamais os Espíritos inferiores que, como vós, querem apenas o mal. E para vos ajudar querem também ser servidos nos seus maus propósitos. Mas não se segue daí que vosso vizinho não possa se livrar deles por meio de uma ação contrária e por sua vontade. Aquele que quer cometer uma má ação atrai, pelo simples fato de querer, os maus Espíritos para o auxiliar; então, fica obrigado a servi-los por sua vez, porque eles também têm necessidade dele para o mal que queiram fazer. É somente nisso que consiste o pacto.

☼ A dependência em que o homem se encontra, algumas vezes, em relação aos Espíritos inferiores provém de se entregar aos maus pensamentos que são sugeridos e não de quaisquer propostas aceitas de ambas as partes. O pacto em seu sentido comum ligado à essa palavra é uma alegoria que representa uma criatura de natureza má que simpatiza com os Espíritos maldosos.

550 Qual o sentido das lendas fantásticas em que os indivíduos teriam vendido sua alma a Satanás para obter favores?

– Todas as fábulas encerram um ensinamento e um sentido moral. O erro é tomá-las ao pé da letra. Essa é uma lenda que se pode explicar assim: aquele que chama em sua ajuda os Espíritos para obter os dons da riqueza ou qualquer outro favor rebela-se contra a Providência, renuncia à missão que recebeu e às provas por que precisa passar na Terra e sofrerá as conseqüências na vida futura. Isso não significa que sua alma esteja sempre condenada ao sofrimento. Mas, se em vez de se libertar da matéria, a ela se liga cada vez mais, o que foi para ele uma alegria na Terra não o será no mundo dos Espíritos até que tenha resgatado a sua falta por novas provas, talvez maiores e mais difíceis. Por seu apego aos prazeres materiais, coloca-se sob a dependência dos Espíritos impuros. Fica assim estabelecido entre ambos um pacto tácito que o conduz à perdição, mas que é sempre fácil de romper com a assistência dos bons Espíritos, se para isso tiver vontade firme.
Poder oculto. Talismãs. Feiticeiros

551 Pode um homem mau, com a ajuda de um mau Espírito que lhe é devotado, fazer o mal a seu próximo?

– Não. A Lei de Deus não o permite.

552 O que pensar da crença no poder que certas pessoas teriam de enfeitiçar?

– Algumas pessoas têm um poder magnético muito grande do qual podem fazer mau uso se seu próprio Espírito é mau e, nesse caso, podem ser ajudadas por outros maus Espíritos. Entretanto, não acrediteis nesse pretenso poder mágico que está apenas na imaginação das pessoas supersticiosas, ignorantes das verdadeiras leis da natureza. Os fatos que citam para comprovar o seu poder são fatos naturais mal observados e, principalmente, mal compreendidos.

553 Qual pode ser o efeito das fórmulas e práticas com que algumas pessoas pretendem dispor da cooperação dos Espíritos?

– É o efeito de torná-las ridículas se forem pessoas de boa-fé. Caso contrário, são patifes que merecem castigo. Todas as fórmulas são enganosas; não há nenhuma palavra sacramental, nenhum sinal cabalístico, nenhum talismã que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porque eles são atraídos somente pelo pensamento e não pelas coisas materiais.

553 a Alguns Espíritos não têm, às vezes, ditado fórmulas cabalísticas?

– Sim, há Espíritos que indicam sinais, palavras esquisitas ou prescrevem alguns atos com a ajuda dos quais fazeis o que chamais de tramas secretas; mas ficais bem certos: são Espíritos que zombam e abusam de vossa credulidade.

554 Aquele que, errado ou certo, tem confiança no que chama virtude de um talismã, não pode por essa própria confiança atrair um Espírito, já que é o pensamento que age? O talismã não será apenas um sinal que ajuda a dirigir o pensamento?

– É verdade; mas a natureza do Espírito atraído depende da pureza da intenção e da elevação dos sentimentos; portanto, devemos crer que aquele que é tão simples para acreditar na virtude de um talismã não tenha um objetivo mais material do que moral. Além do mais, em todos os casos, isso indica uma inferioridade e fraqueza de idéias que o expõem aos Espíritos imperfeitos e zombeteiros.

555 Que sentido se deve dar à qualificação de feiticeiro?

– Aqueles que chamais feiticeiros são pessoas, quando de boa-fé, dotadas de algumas faculdades, como o poder magnético ou a dupla vista. Então, como fazem coisas que não compreendeis, acreditais que são dotados de um poder sobrenatural. Vossos sábios, freqüentemente, têm passado por feiticeiros aos olhos das pessoas ignorantes.

☼ O Espiritismo e o magnetismo nos dão a chave de uma multidão de fenômenos sobre os quais a ignorância teceu uma infinidade de fábulas em que os fatos são exagerados pela imaginação. O conhecimento esclarecido dessas duas ciências, que por assim dizer são apenas uma, mostrando a realidade das coisas e sua verdadeira causa, é a melhor defesa contra as idéias supersticiosas, porque mostra o que é possível e o que é impossível, o que está nas leis da natureza e o que é apenas uma crença ridícula.

556 Algumas pessoas têm verdadeiramente o dom de curar pelo simples toque?

– O poder magnético pode chegar a esse ponto quando se alia à pureza dos sentimentos e um ardente desejo de fazer o bem, porque os bons Espíritos vêm em sua ajuda, mas é preciso desconfiar da maneira como as coisas são contadas por pessoas muito crédulas ou entusiasmadas, sempre dispostas a ver o maravilhoso nas coisas mais simples e naturais. É preciso, também, desconfiar das narrações interesseiras das pessoas que exploram a credulidade em seu proveito.
Bênção e maldição

557 A bênção e a maldição podem atrair o bem e o mal sobre aqueles em quem são lançadas?

– Deus não escuta uma maldição injusta e aquele que a pronuncia é culpado a seus olhos. Como temos os dois opostos, o bem e o mal, ela pode ter uma influência momentânea, até mesmo sobre a matéria; mas essa influência ocorre apenas pela vontade de Deus e como acréscimo de prova para aquele que dela é objeto. Além disso, muitas vezes, se maldizem os maus e se abençoam os bons. A bênção e a maldição não podem nunca desviar a Providência do caminho da justiça e nunca atinge o maldito senão quando é mau. A sua proteção cobre apenas aquele que a merece.